Correio da Manhã
- 12 Nov 07
Semana do dinheiro
600 euros até ao fim do mês
Raquel Oliveira / Janine de Miguel
A família Angélico (pai, mãe e dois filhos) vive com
600 euros e recusa qualquer tipo de crédito
Os grandes gestores do momento não estão nos bancos
nem na Bolsa. Estão em nossa casa e são a maioria da
classe média portuguesa que tem de viver o dia-a-dia
com cerca de 600 euros por mês. Aqueles para quem
tomar um café é um “luxo” incomportável e uma ida ao
restaurante é uma escolha impossível.
Milhares de famílias vivem com um ou dois salários
mínimos (403 euros por mês). Não passam fome, não
têm dívidas bancárias, vestem, alimentam e educam os
seus filhos ano após ano.
O seu segredo é só um: a ajuda da família. Em vez de
recorrer ao crédito bancário, recorre-se à ajuda
familiar quando sobram os dias em relação ao
salário.
A família Angélico exemplifica a capacidade de
gestão das famílias portuguesas. Pai, mãe e dois
filhos pequenos vivem, mensalmente, com 600 euros.
“Vivo melhor do que muita gente que ganha mais”,
conclui Carlos Angélico, depois de detalhar ao
Correio da Manhã o dever e o haver de um orçamento
que não permite ir além do essencial, uma vez que é
o único a trabalhar.
“A comida não pode faltar aos miúdos”, afirma o
operário da construção civil de 31 anos, definindo
assim quais são as prioridades da família. O leite,
os iogurtes fazem parte das compras no supermercado,
feitas logo no início do mês para garantir que “não
faltam”.
A cadeia de supermercados onde se abastece já é das
mais económicas do mercado mas ainda assim Carlos
sabe de “um ainda mais barato” mas não tem carro
para o levar até lá.
A carne e o peixe, e eventualmente algum produto de
limpeza que faça falta, são comprados durante a
semana. “Compro bifanas e costeletas”, explica
Patrícia Angélico, reconhecendo que são estes os
produtos mais acessíveis do talho.
O peixe também entra nos menus familiares, sobretudo
“carapau e caxucho”, mas neste caso a jovem de 23
anos conta com uma facilidade que permite ganhar
alguma folga: o comerciante vende fiado.
Em transportes também não gastam: o trabalho de
Carlos é mesmo em frente da casa e a creche do
Rafael também é perto.
Não fora estas “pequenas ajudas” e uma forte rede
familiar, o baixo rendimento traria graves
dificuldades ao casal. Sobretudo neste momento em
que Carlos Angélico está de baixa e recebe apenas
560 euros, 90 dos quais da Assistência Social.
“Temos uma boa família”, sublinha Carlos, recordando
que só o facto de não pagar renda é um grande apoio.
A avó cedeu-lhe o espaço para um anexo que
construiu. Um furo garante a água e a luz é dividida
com a avó. Nos meses mais difíceis, o acerto de
contas é adiado, confessa Patrícia.
São também os familiares que oferecem a roupa e
alguns brinquedos ao Rafael, que insiste que ainda
não tem três anos, e ao Leandro, que fez há pouco
tempo um ano.
Sem a ajuda da família seria impossível, reconhece
Carlos Angélico que recusa liminarmente qualquer
tipo de crédito. “Nem cheques temos”, afirma, como
se desta forma impedisse a tentação de gastar mais
do que o que tem.
“Se temos, podemos gastar, se não temos, não
compramos”, garante recordando a última grande
aquisição da família, um computador. “Andei a poupar
durante mais de dois anos para o comprar”, explica.
Mas esta despesa de 800 euros, num orçamento onde
todo o cêntimo tem de ser justificado, tem a sua
razão de ser. “Assim crio condições para ficarmos em
casa e não precisamos de ir ao café”, explica
Carlos.
É que, garante, riscou as idas ao café, ao cinema e
até a fazer uma refeição fora de casa. “Não dá para
isso”, sublinham Carlos e Patrícia Angélico.
"VIVO NUMA LUTA DIÁRIA PELAS MINHAS FILHAS"
Viver do salário mínimo (403 euros) com duas filhas
menores (sete e 11 anos) é o exercício diário de
Luciana Rodrigues de 29 anos que vive em Melgaço. É
auxiliar no Centro Comunitário Associação Social e
Cultural de São Cosme e Damião de Podame (freguesias
de Melgaço), onde cuida de idosos.
Foi mãe aos 18 anos, o casamento não resistiu, o que
dificultou ainda mais a situação económica. Mas mais
uma vez “a rede familiar” estava lá para ajudar.
Vive em casa da mãe, que toma conta das netas quando
Luciana vai para o trabalho. As crianças sofrem de
bronquite asmática e uma delas de insuficiência
renal, tendo sido submetida a várias intervenções
cirúrgicas nos últimos anos. Só em bombas para asma
gasta cerca de 80 euros, fora os outros
medicamentos.
“Para além do meu salário, recebo ainda o abono de
família e para ganhar mais uns trocos faço umas
horitas de limpeza e de lavoura, para tentar
concretizar alguns desejos das minhas filhas, para
que não se sintam tão desfavorecidas em relação às
outras crianças”.
Vestem e calçam roupas que lhes são dadas por uma
prima, recebem brinquedos dos tios e padrinhos que
são emigrantes.
Mantém com as filhas uma relação de grande
cumplicidade. Desde muito cedo teve o cuidado de
lhes explicar as limitações económicas que têm. “Não
podem pedir nada de exuberante porque eu não posso
dar, já que só conto com o meu salário, o abono de
família e a pensão do pai que é de 140 euros para as
duas e que já vão alguns meses que não paga”.
Como qualquer cidadã faz os seus descontos para a
Segurança Social mas encontra-se isenta de impostos.
No tempo que lhe resta, cultiva terrenos que estão
abandonados pelos donos para poder plantar batatas,
hortaliças, legumes, árvores de fruto e cria
galinhas, ovelhas e porcos para poder poupar algum
dinheiro no seu orçamento mensal.
“Vivo uma luta diária pelas minhas filhas, não posso
ficar doente, senão as minhas filhas vão viver de
quê?”
COMO ESTICAR O ORDENADO ATÉ AO FIM DO MÊS?
1. CONTA ORDENADO
Estas contas representam um saldo descoberto
autorizado no valor do ordenado. Mas o utilizador
terá de ter em atenção a taxa TAEG (que inclui todos
os custos, para além do juro) que é aplicada sempre
que se opte por pagar em prestações o dinheiro
utilizado na conta ordenado. O melhor é pagar tudo
de uma só vez.
2. CARTÃO DE CRÉDITO
Este cartão pode ser um bom instrumento para fazer
face às despesas até ao novo ordenado, desde que
seja bem utilizado, isto é, desde que não tenha
anuidade e que o pagamento seja feito na totalidade,
explica Natália Nunes, da DECO. Se oferecerem
dinheiro pelo valor das compras, melhor.
3. CARTÃO DE CLIENTE
Os cartões de alguns estabelecimentos comerciais
ajudam a gerir o orçamento mensal. Sobretudo os que
permitem o pagamento faseado, sem juros durante um
período de tempo, e os que oferecem descontos, por
exemplo, no combustível, mas, mais uma vez,
recomenda Natália Nunes, é preciso ponderar o seu
uso.
COMO APLICAR
CINCO MIL EUROS
1. O tipo de investimento a efectuar por um
investidor depende do seu perfil de risco.
Recomendamos ainda que o investidor opte sempre por
uma carteira diversificada. Para um cliente de menor
dimensão, recomendaria o Santander Global, um fundo
com objectivos de retorno absoluto e que desde o seu
lançamento tem oferecido rentabilidades bastante
superiores à taxa de juro.
CINQUINTA MIL EUROS
2. Para clientes de maior dimensão e que consigam
ter acesso a uma carteira Premium recomendaria
exposição ao segmento Selection. Outra opção seria o
Santander Carteira Alternativa, um fundo de Hedge
Funds, com objectivos de retorno absoluto e que tem
apresentado rentabilidades muito atractivas nos
últimos anos.
CONSELHOS PRÁTICOS PARA POUPAR
LISTA
Nunca vá ao supermercado sem uma lista dos bens que
realmente precisa. Corte as compras por impulso.
‘BRANCAS'
As chamadas “marcas brancas” conseguem igualar em
qualidade os restantes bens e são muito mais
baratas.
SALDOS
Deixar as compras de roupa para a época dos saldos é
uma forma de economizar centenas de euros por ano.
FACTURAS
Leia todas as facturas que recebe em casa. Podem
existir despesas que devem ser eliminadas logo no
mês seguinte.
ÁGUA
Controle os gastos e feche bem as torneiras. Uma
torneira a pingar pode gastar cerca de 25 litros de
água por dia.
ENERGIA
Adira a planos de baixo consumo, com tarifas
reduzidas a partir das 22h00, que permitem poupar
nas contas.
CRIANÇAS
Ensine os seus filhos a poupar, oferecendo
mealheiros e estimulando-as a guardar o dinheiro que
lhes dão.
CARRO
Deixe o carro em casa e prefira os transportes
públicos. Se tiver de usar o carro divida-o com mais
pessoas.
NOTAS
IDAS AO CAFÉ ACABARAM
Sem se dar por isso, o café diário pesa no orçamento
familiar. Há muito que a família Angélico perdeu o
hábito da bica. Tal como as refeições fora. O
casamento, confessam a rir, foi festejado numa
cadeia de fast food.
AVÓ MATERNA TAMBÉM AJUDA
A ajuda da avó materna vai ser fundamental no
próximo mês, quando Patrícia Angélico for trabalhar.
Um contrato por um mês nas limpezas ainda a fez
pensar numa ama. Mas os 130 euros pedidos eram uma
despesa incomportável.
BRINQUEDOS NOS CHINESES
Os poucos brinquedos que a família Angélico oferece
aos filhos são comprados nas lojas chinesas. São os
mais baratos que encontram e, mesmo assim, só muito
de vez em quando, porque são um extra num orçamento
contido.
EXCESSO COM O PRIMEIRO FILHO
Quando nasceu o primeiro filho, Carlos Angélico
gastou o ordenado em roupa para festejar. Um
excesso, reconhece agora, numa altura em que a roupa
com que veste os dois filhos é oferecida por
familiares e em que tudo passa para o mais novo.
2 MILHÕES COM 300 EUROS
Segundo o economista Eugénio Rosa, “mais de dois
milhões de portugueses vivem com um rendimento
inferior a 300 euros por mês”
AUTOCONSUMO AUMENTA
Tem vindo a aumentar o fenómeno da agricultura de
subsistência nas grandes cidades. As pequenas hortas
sempre contribuem para a poupança das famílias
PLANEAMENTOS SEMANAIS
Seguindo a tradição anglo-saxónica, fazer orçamentos
semanais ajuda as famílias a identificar mais
oportunidades de poupança e a racionalizar as
despesas
IDAS AOS PARQUES PÚBLICOS
Levar as crianças a passear aos parques públicos é
uma forma económica de passar um fim-de-semana
divertido e aumenta a qualidade de vida
VÍNCULOS PRECÁRIOS
A multiplicação de contratos de trabalho precários
tem contribuído para aumentar a pressão sobre os
salários, que tendem a descer
SUBIDA DE 12 EUROS
Segundo Eugénio Rosa, nos últimos dois anos o
salário médio dos portugueses terá subido 12 euros
passando de 734 para os 746
AMANHÃ: Quanto ganham os portugueses?
CONTAS À VIDA DA FAMÍLIA ANGÉLICO
150 euros (Supermercado no início do mês)
40 euros (alimentação semana)
50 euros (medicamentos)
32 euros (creche Rafael)
45 euros (electricidade e gás)
30 euros fraldas
10 euros (ração cão)
5 euros catatua (ração catutua)
15 euros telemóveis
Total: 497 euros
DESPESAS DO AGREGADO FAMILIAR EM PORTUGAL
DESPESAS COM HABITAÇÃO: 19,8%
MÓVEIS, DECORAÇÃO E EQUIPAMENTO PARA CASA: 7,2%
SAÚDE: 5,2%
TRANSPORTES: 15%
COMUNICAÇÕES: 3,3%
LAZER E CULTURA: 4,8%
ENSINO: 1,3%
HOTÉIS, CAFÉS, RESATURANTES E SIMILARES: 9,5%
OUTROS: 6,1%
ALIMENTAÇÃO E BEBIDAS NÃO ALCOÓLICAS: 18,7%
BEBIDAS ALCOÓLICAS E TABACO: 2,8%
VESTUÁRIO E CALÇADO: 6,6
Fonte: INE