| Público - 9 Nov 04
Ministério Público Acusou Alegados Autores de Praxe
Por
ANDREIA SANCHES
O caso de Ana
Francisco, a aluna que no ano passado se queixou de "tortura" nas
praxes na Escola Superior Agrária de Santarém, poderá vir a ser
julgado em tribunal. O Ministério Público acusou sete pessoas, seis
das quais eram membros da comissão de praxes no ano lectivo 2002/03.
O outro arguido era um aluno veterano da escola.
Os jovens que
pertenciam à comissão de praxes são acusados de crime de ofensa à
integridade física qualificada; o veterano é acusado de coacção e
injúria. Pelo menos alguns deles já não frequentam a escola. Todos
foram sujeitos a termo de identidade e residência.
Tal como Ana
Francisco, os arguidos requereram, em Setembro, a abertura da
instrução - um juiz deverá agora decidir ou não a pronúncia. Se o
caso for a julgamento, tratar-se-á de uma situação que, se não é
inédita é, no mínimo, pouco comum, como explicou ao PÚBLICO Tiago
Gillot, membro do Movimento Anti-tradição Académica (MATA). "Não me
lembro de nenhum caso de praxes que tenha chegado ao tribunal",
refere Gillot que, no ano passado, apoiou a jovem nas denúncias.
Na opinião do
membro do MATA, "é extremamente importante que o processo vá a
tribunal, depois da coragem que Ana revelou para denunciar os abusos
de que foi alvo".
Foi em
Fevereiro de 2003 que Ana Francisco, caloira da escola de Santarém,
escreveu uma carta ao então ministro da Ciência e do Ensino
Superior, Pedro Lynce, onde denunciava as praxes a que dizia ter
sido sujeita. Queixou-se ainda à direcção da escola e à PSP.
Insultos e
excrementos
Na exposição
enviada ao ministro e noticiada pelo PÚBLICO a 18 de Março do ano
passado, explicou como fora sujeita a uma sucessão de praxes que
considerou uma verdadeira "tortura". "Durante os nove dias
(primeiros de estada na escola...) o meu espanto aumentava: 21 horas
diárias a sermos nós, os caloiros, vítimas de praxes consecutivas",
que passavam por não poder falar ao telefone e fazer flexões.
No dia 8 de
Outubro de 2002, juntamente com mais 30 caloiros, Ana foi levada por
membros da comissão de praxes para uma quinta de que a escola é
proprietária. O facto de ter atendido um telefonema da mãe terá
originado uma discussão com os praxistas que precipitou os factos
que fizeram com que Ana viesse a apresentar queixa.
"Continuavam a
gritar expressões como 'porca', 'ovelha', que não merecia o almoço
que tinha comido, que devia era comer merda", relatou a jovem, na
altura com 22 anos, na exposição a Lynce.
Entre outros
castigos, foi-lhe ordenado que se ajoelhasse sobre as palmas das
mãos. "Um veterano foi buscar dois sacos de esterco de porco e,
sendo escolhidos quatro dos 30 caloiros presentes, foi-lhes dada a
liberdade de me esfregarem com esse esterco (...) camada sobre
camada, esfregaram-me a cara, pescoço, peito, costas, barriga,
cabelo. Fiquei muito assustada, sem possibilidade de pedir apoio,
perdi a noção do tempo, tive momentos em que nem sabia onde estava",
relatou na altura, na mesma carta.
Ana contou que
já na escola foi levantada pelas pernas e colocaram-lhe a cabeça
sobre excrementos de vaca que estavam dentro de um bacio.
Para o
Ministério Público, os arguidos terão agido de forma livre,
deliberada e consciente, sabendo que as suas condutas eram proibidas
e punidas por lei. Mas Ana Francisco, que acabou por pedir
transferência de escola, não está satisfeita. Em Setembro passado
requereu a abertura de instrução e no requerimento dá conta da sua
discordância relativamente aos termos da acusação.
Entende que
foi sujeita a actos que podem configurar outros crimes (para além
dos que constam da acusação), como ameaça ou sequestro. Mas o
Ministério Público mandou arquivar essa parte dos autos. Agora, cabe
ao juiz pronunciar-se.
Contactada
pelo PÚBLICO, uma das arguidas fez saber que, por enquanto, nem ela
nem os colegas fazem comentários. "Ainda não sabemos se vamos a
julgamento ou não e o caso está em segredo de justiça", explicou.
Os acusados
chegaram a ser alvo de dois processos disciplinares: um da escola,
outro do Instituto Politécnico de Santarém, onde está integrada.
Este último determinou a suspensão dos alunos por um período de 15
dias.
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