Expresso - 1 de Novembro de 2002

A vida é difícil
 António Pinto Leite
    
A vida é difícil. Esta frase foi-nos repetida pelos nossos pais. Hoje, como pais, quantos de nós dizemos aos nossos filhos, com intenção de que frutifique, que a vida é difícil? Partir para a vida sem a noção de que ela é difícil é torná-la ainda mais difícil.

Os pais que amadurecem a vontade e a liberdade dos seus filhos com a noção de que a vida é difícil estão a facilitar-lhes a vida.

Há um problema moderno central: o Homem crê que ser feliz é não ter problemas, nem conflitos, assim como confunde estar satisfeito com ser feliz.

A primeira crença é generosa, mas irrealista; a segunda crença é sedutora, mas um equívoco.

Comecemos pelo irrealismo: um mundo sem problemas e sem conflitos não existe. Formar a nossa liberdade, construir a nossa motivação de vida a partir do pressuposto idealista de que não devia haver problemas e conflitos é um erro.

Educar para o bom uso da liberdade é educar para aprender a ler a vida num mundo de conflitos.

O pai que não coloca aos filhos uma dimensão de dificuldade, mas antes corre à frente do filho procurando resolver-lhe todos os problemas, educa mal.

O crescimento sem adversidade é fragilizante da personalidade e, sobretudo, inadequado para o mundo conflitual em que vivemos.

As duas dimensões nucleares da vida humana são, cada vez mais, espaços de tensão e de conflito: o amor e o trabalho.

Só personalidades fortalecidas na sua formação pela percepção clara das dificuldades da vida saberão persistir, esperar e exercitar a paciência para fazer prosperar relações profundas onde assentam os grandes compromissos da vida, como o casamento e a família.

No mundo empresarial, crescentemente competitivo, a questão é semelhante: as personalidades amadurecidas pela aprendizagem das contrariedades da vida têm melhor capacidade de afirmação e de construção do que aquelas que não conseguem integrar em si, de modo são e natural, a tensão, o conflito ou a diferença.

A qualidade de vida de cada um de nós mede-se pela qualidade das nossas relações.

Se a qualidade da nossa vida, sobretudo no amor e no trabalho, se mede pela qualidade das nossa relações e essas relações estão condicionadas por um ambiente de tensão, a sabedoria da vida está em gerir essa tensão e não em iludi-la.

Por outro lado, a sedução da satisfação imediatista é um equívoco perigoso. Perigoso porque orientamos a nossa necessidade de ser felizes por um caminho que não é solução.

O contentamento, como fim em si mesmo, é sempre meio caminho. Inelutavelmente, fica o resto do caminho por andar e é nesse resto que se joga a plena realização de cada um.

A vida, quando a prezamos, é feita de projectos que prosseguimos, quer chova quer faça sol.

Não devemos silenciar, nem comprar, pela lógica da satisfação imediata, a força interior que nos move.

Saber pagar o preço do desgaste e não só o preço da comodidade é o segredo da vida.

Um mundo de pessoas apaparicadas, que recusa que a vida seja difícil, é um mundo fragilizado.

A vida é bela, sendo o que é.
 

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