Público - 28 de Novembro de 2002

Sampaio Apela à Auto-estima para Melhorar Resultados na Educação
Por ANDREIA SANCHES

Presidente abriu conferência internacional sobre ensino a decorrer na Gulbenkian, em Lisboa

"Temos sido periodicamente confrontados, diria mesmo bombardeados, com retratos da educação no nosso país que nos entristecem e desvalorizam". Foi assim que o Presidente da República ontem deu o pontapé de saída para um debate de especialistas à volta do ensino e da aprendizagem, que hoje termina na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Jorge Sampaio referia-se aos estudos internacionais, "com origens nas mais diversas fontes", que periodicamente colocam os alunos portugueses entre os mais fracos ou os menos habilitados. "Propensos, tantas vezes, a olharmo-nos com um misto de pessimismo e complacência", continuou, às vezes as "conquistas" já feitas nas últimas três décadas - como o aumento do nível de educação dos cidadãos - são esquecidas.

E se é certo que são "por vezes perturbadores" os dados revelados por esses estudos, é tempo, segundo Sampaio, de fazer alguma coisa a partir deles. "Chegou a altura de congregar esforços no país para sabermos com a possível precisão em que ponto nos encontramos" e "inventariar as lacunas e deficiências na formação dos portugueses". O que fazer para combater o abandono? Como assegurar uma aprendizagem de qualidade para todos? - são algumas das questões sobre as quais é preciso reflectir.

Sampaio dirigiu-se ainda a quem é, frequentemente, alvo de duras críticas - os professores: "Como é possível acreditar que os resultados podem ser melhores se não contarmos com os professores? Sem auto-estima não vamos lá!", declarou, perante uma plateia de centenas de docentes, investigadores e outros profissionais do ensino que compareceram para o primeiro dia da conferência internacional "Cruzamento de saberes, aprendizagens sustentáveis", organizada pela Gulbenkian.

Criticas aos 12 anos de ensino obrigatório

Também Marçal Grilo, administrador da Gulbenkian e ex-ministro da Educação, não esqueceu os docentes, na sua intervenção: "O país não conhece nem tem ideia dos professores que tem nas suas escolas. Quando oiço referências depreciativas em relação aos nossos professores sinto uma grande revolta, porque sei que pelo país fora existem milhares e milhares que pelo seu profissionalismo, competência, dedicação e esforço deviam merecer o nosso reconhecimento diário. É com eles que é preciso contar".

Sampaio falou por fim da educação de adultos, cuja importância considera "decisiva para a democratização e para o desenvolvimento do país", mas que, sublinhou, nunca teve o necessário estatuto de "prioridade".

Já Daniel Sampaio, médico e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, que presidiria mais tarde à sessão destinada a debater a "formação e erosão de saberes nas sociedades de informação e de risco", não se coibiu de criticar a intenção do Governo de alargar a escolaridade obrigatória até ao 12º ano. Considerando "estranha" a "unanimidade" que rodeou "o anúncio" desta medida, o psiquiatra lembrou que "quase metade dos jovens que ingressam no ensino não concluem a escolaridade obrigatória" de nove anos. "Não deveriam as nossas energias ser canalizadas para melhorar a escolaridade até ao 9º ano?", perguntou. Mas o ministro da Educação, David Justino, que estivera na cerimónia de abertura do evento, já não estava para responder.

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