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Público - 28 de Novembro de 2002
O Lugar dos Media e o Lugar da Justiça
A revolta é legítima. A sede de justiça imensa. O sentimento de que foi
necessária a denúncia pública, mediática, para que o segredo imundo se
descobrisse, legítimo. Mas os media não podem ser um circo romano. Nem realizar
julgamentos sumários.
Ontem assistimos ao linchamento público, em todas as televisões, de um
diplomata. Alguns dos depoimentos transmitidos eram caricatos, outros anónimos.
Nenhum faria prova em tribunal. Mas há alguém, que mesmo podendo carregar toda a
culpa do mundo, não teve direito à democrática e civilizacional presunção de
inocência.
Provavelmente, nos próximos dias, assistiremos a mais casos destes. A nomes
lançados aos cães, para aplacar a fúria de uma multidão que pede sangue.
Nas redacções pululam os nomes, verosímeis e inverosímeis. Na redacção do
PÚBLICO também. E sabemos que outros nomes aparecerão. Que se conhecerá o
depoimento e as acusações, com nomes, feitas por "Bibi" depois da sua prisão e
durante o seu interrogatório. Que haverá fontes fiáveis, como também as temos, e
se multiplicarão os testemunhos, como também já nos chegaram.
A tentação será, mais tarde ou mais cedo, começar a divulgar os nomes de que se
fala. Antecipar-se à concorrência. E exigir "justiça".
O PÚBLICO não entrou nem entrará por esta via. Seremos exigentes, violentos se
necessário, se sentirmos que a Justiça não actua - mas não seremos justiceiros.
Porque, como escreveu Milan Kundera, "a ciência do jornalismo é combater a
injustiça sem cair nela".
A direcção editorial do PÚBLICO
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