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Expresso - 16 de Novembro de 2002
Guerras de cultura
João Carlos Espada
O QUE significa a expressão 'guerra de cultura'»? Esta foi a pergunta de muitos
participantes europeus no início do Encontro de Estudos Políticos, que decorreu
em Cascais de 3 a 5 de Novembro, sobre o tema «Guerras de Cultura no Ocidente».
Por «guerras de cultura» os americanos entendem o choque entre as chamadas
«concepções particulares do bem». Esse choque é particularmente visível no campo
da educação e da família, mas muitos outros poderiam ser referidos.
Vale talvez a pena referir o comentário de um dos participantes norte-americanos
ao facto de o termo ser quase desconhecido na Europa: «Se a expressão 'guerra de
culturas' não faz sentido na Europa, isso só pode querer dizer que uma das
partes nessa guerra está calada, ou tem receio de se fazer ouvir. E não vou ter
dificuldades em adivinhar qual».
Caberá ao leitor europeu e português avaliar se a resposta norte-americana
corresponde ou não aos factos. A verdade, em qualquer caso, é que, na América, a
guerra de culturas está ao rubro; ou, talvez mais exactamente, já esteve ao
rubro e parece agora caminhar para um desenlace - favorável, curiosamente, à
parte que, na Europa, terá estado calada.
De um lado, em termos muitos gerais, estão aqueles que defendem a liberdade como
libertação de todos os constrangimentos morais: libertação dos padrões
convencionais de família, libertação dos conceitos de bem e de verdade,
libertação dos constrangimentos da aprendizagem. Embora este campo englobe
muitas correntes diversas, é costume designá-los por pós-modernos,
subjectivistas ou relativistas. Em regra estão mais à esquerda, mas muitos
sectores da esquerda, sobretudo em Inglaterra e nos EUA, não gostam deles.
De outro lado, também em termos muito gerais, estão os que entendem a liberdade
sobretudo como virtude, e como parte de um conjunto mais vasto de virtudes ou
deveres: os deveres dos pais para com os filhos e vice-versa; os deveres dos
professores para com a busca do bem e da verdade; os deveres dos alunos para com
a mesma busca e, portanto, para com a disciplina da aprendizagem. Também este
campo engloba muitas correntes, mas elas estão sobretudo ao centro e à direita;
com excepção da América e da Inglaterra, onde também se encontram na esquerda,
nos chamados New Democrats americanos e em alguns sectores do New Labour inglês
- talvez sobretudo no próprio Tony Blair.
Um dos aspectos mais curiosos deste debate foi apontado, no Encontro de Cascais,
por Lord Plant, teórico trabalhista inglês. Trata-se à primeira vista de um
paradoxo: os defensores da ausência de padrões morais objectivos defendem um
sistema educativo centralizado, dirigido e imposto pelo Estado; os defensores da
existência de padrões morais objectivos defendem a liberdade de educação, a
autonomia das escolas e a escolha destas pelas famílias.
«O contrário não seria mais lógico?», perguntou Lord Plant. «Seria talvez de
esperar que quem defende que não há padrões morais objectivos defendesse também
a liberdade de escolha e de criação de escolas; e que quem defende que existem
padrões morais objectivos defendesse também que estes fossem impostos, ou pelo
menos promovidos pelo Estado».
Quem sabe explicar este aparente paradoxo? Este seria um excelente tema para uma
investigação em teoria política. É de temer, no entanto, que, ainda antes de ela
ser escrita, os eleitores americanos estejam a responder à pergunta.
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