Público - 6 de Novembro

França, Centro da Moda? 
Por GRAÇA FRANCO

A França republicana, laica e socialista, mas com mais de uma década de políticas efectivas de fomento da natalidade e apoio à família, ultrapassou este mês a catolicíssima Irlanda, passando a exibir, segundo os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística, a mais alta taxa de natalidade da Europa (1,89 crianças por mulher). Jospin, que em 1998 abriu a conferencia anual sobre a família afirmando que o essencial "é que cada um possa constituir a família que deseja sem constrangimentos de ordem ideológica ou financeira", deve estar a esfregar as mãos de contente! 

Acusado de ter adoptado um discurso de direita ao fazer da política de família uma das suas "grandes prioridades" deste ano e de ter transformado a ministra respectiva (a mediática Ségolene Royal) na "superstar" do Governo, Jospin tem resistido, apesar de tudo, à ácida crítica da esquerda clássica que não pára de acentuar que o novo discurso cola mal com o percurso pessoal do primeiro-ministro e com o seu afinal tão recente abandono do trotskismo. 

É evidente que as propostas de maior liberalização do divórcio ou o novo tratamento legal para os "casais" homossexuais tentam responder a essas críticas. Mas a decisão de permitir aos pais o gozo de quinze dias de férias, integralmente pagas, por ocasião do nascimento de um filho, para que possam acompanhar as mães, foi vista como uma medida "roubada" ao programa alternativo de Governo proposto pela direita. 

Em Maio de 68, as feministas nas ruas de Paris queimavam "soutiens" e celebravam a vinda da pílula. Chegadas ao poder, decidiram este ano que a pílula do dia seguinte seja distribuída gratuitamente nas escolas aos adolescentes, liberalizaram ainda mais a lei do aborto e não param de propor novas medidas na matéria. Para a maioria da geração do amor livre, ter filhos (ou melhor, vários filhos!) continua sobretudo a ser visto como uma espécie de prisão que tolhe os movimentos de emancipação. 

As filhas, que já não conheceram as limitações impostas às mães (e sempre puderam ser polícias, militares ou astronautas sem que isso fosse notícia...), "ingratas", enchem agora sem complexos as ruas de Paris de cadeirinhas todo-o-terreno e mochilas de todas as cores e feitios repletas de bebés sorridentes. 

Mas a mudança não surgiu de geração espontânea. Foi o resultado da adopção de políticas positivas de apoio familiar e parece, além disso, provar que, mais do que uma questão cultural/religiosa ou uma questão de opção pela realização profissional versus uma espécie de prisão familiar, as mulheres a quem são concedidas de facto condições de escolha optam cada vez mais por fazer o pleno "família/carreira" sem considerarem tratar-se de projectos alternativos. E para as que podem optar por um trabalho a tempo inteiro na família isso não corresponde necessariamente à assunção de um fardo como o viam as feministas dos anos sessenta. A experiência nórdica prova-o bem! 

A bebé-atitude, como lhe chamam os "media", transparece um pouco por todo o lado desde o "boom" da moda infantil passando pelas capas das revistas. Os demógrafos não excluem, no entanto, que se trate de uma tendência passageira. Não é a França o centro da moda? 

Quanto aos sociólogos, não sabem ainda explicar se o que se passa no mundo da moda propriamente dita (entre as "top models") é mero reflexo da tendência geral ou se, pelo contrário, é a maternidade assumida pelas manequins que contribui para que as mulheres da rua tendam a imitar os seus comportamentos. 

De facto, entre as "top models", até há bem pouco tempo vistas como a antítese das "mulheres-mãe", no seu resplandecente corpo perfeito, símbolo máximo do desejo masculino, e cujas respectivas agências se esforçavam por preservar como mulheres "sem idade nem família", a fim de manterem a respectiva cotação no mercado... o "baby-boom" é total. 

Citando apenas a lista do "Figaro Magazine": Stella Tennant, Cindy Crawford, Elle Mac Pherson, Andrey Marnay, Estelle Lefébure, Carla Bruny ou a badaladíssima Laeticia Casta, todas fizeram questão de exibir o mais que puderam, ou podem, o respectivo estado interessante. 

Os empregadores reconhecem agora que as gravidezes assumidas em nada prejudicaram as carreiras das respectivas estrelas e, em certos casos, consideram mesmo que isso apenas terá reforçado a respectiva cotação. Sinal claro da maturidade de um processo de emancipação, em que as mulheres puderam passar a reivindicar o reconhecimento da "diferença" como parte integrante da reivindicação da igualdade? 

Eu, que me encontro no dito estado interessante, fico feliz de estar tão "in". Sobretudo quando a minha provecta idade (que não revelo, mas não andará longe da da senhora Blair que, como se recordarão, deu recentemente à luz um mediático Leo...) me faz sobretudo suportar o peso de uma atitude politicamente incorrecta. 

Claro que ter um filho nos "enta" não tem nada de mais, mas, para que tal se considere "natural", exige-se que caia dentro de algumas categorias, como ser fruto de um processo de combate à infertilidade, ser objecto de um projecto monoparental, ser a cereja no bolo que faltava a uma relação "gay", ser o primeiro de uma nova relação, mesmo que seja o quinto ou sexto a contar com os de relações anteriores ou, na pior das hipóteses, ser um derradeiro esforço de obtenção de um dado sexo. O meu não se enquadra em nenhum destes itens. 

Neste estado em que me encontro, confesso-me mesmo vulnerável a depressões várias, como a de saber se terei de o vacinar "contra a varíola ou o antraz", saber se o seu mundo "será o da Internet ou o da censura global", ou se o espera a vitória da "democracia ou uma ditadura integrista seja de que raiz for...". 

Confesso que me supunha imunizada à angustia do "será menino ou menina?" É neste contexto que vejo um documentário notável sobre a luta pela emancipação das mulheres no século XX (seria na TV5 ou na BBC?) e penso em como foi possível avançar tão rapidamente em tão pouco tempo e voltar-se tão para trás em países como o Irão ou no Afeganistão num período de tempo ainda menor. 

O processo de emancipação que, no caso francês, me parecia tão maduro apresenta-se-me afinal como perigosamente recente, frágil e precário. Voltam a impressionar-me os cadáveres de meninas vítimas de infanticídio na China (sob a política do filho único) e causa-me quase náusea ouvir a explicação de um velho chinês para o facto "sempre foi assim e vai continuar a ser: ter um filho é uma grande alegria, ter uma filha é uma pequena alegria". Felizmente, o meu pai não só sobreviveu a uma existência rodeada de seis "pequenas alegrias" como ainda exibe uma vontade louca de ter mais netas. 

Salto para a actualidade belga e volto a constatar, afinal, a novidade e precariedade do processo. Há dez dias nasceu a pequena princesa Elisabete e o seu nascimento foi o primeiro a ser saudado com 102 tiros. Até aqui, sempre o nascimento de uma princesa foi saudado com apenas metade. A revisão da lei Salica, que permitirá à princesa ser rainha, só ocorreu em 1992, ou seja mais de uma década depois da senhora Thatcher assumir o controlo dos destinos da Grã-Bretanha. 

Só agora, e pela primeira vez, o nascimento de uma princesa não foi tratado pelo Estado belga como sinónimo de "uma pequena alegria" por anteposição à " grande alegria" do nascimento de um príncipe. Em Espanha as princesas ainda não tem esta sorte! 

Acabo a semana deitada na marquesa a perguntar: "é menino ou menina?" O médico garante que já lhe vislumbra o bigode. Estou quase a balbuciar "que pena!..." . Mas o velho chinês nem agora tem razão. No meu mundo quando se tem um filho não se tem pequenas ou grandes alegrias em função do sexo. Só grandes! 

Faço mesmo um esforço de pensamento positivo: o mundo continua a ser mais fácil para "eles"... e isso sempre reduz a angústia sobre o seu futuro. 

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