Expresso - 25 de Novembro

A sociedade livre de drogas 

Manuel Pinto Coelho*

«Verdadeiros 'talibãs' são também todos aqueles que, não acreditando na recuperação dos que estão em dificuldade no terreno, daqueles que utilizaram a droga para se evadir precisamente por não aceitarem a 'proposta' que a sociedade tinha para lhes oferecer, assassinam, com a sua atitude de repúdio, todo e qualquer projecto de vida.» 

DIZIA mestre Amaral Dias dois anos atrás no ISPA: «A coesão da cultura judaica é que mantém os judeus à margem da toxicodependência. O ‘ideal do eu’ é um fortíssimo organizador do sujeito. Por exemplo, resolver-se-ia o problema da droga (em Portugal) declarando guerra à Espanha, pelo aumento em flecha do sentimento de consciência patriótica que daí resultaria». E rematava o distinto professor: «Falta ao mundo coesão dos seus ‘ideais do eu’».

Porque não aproveitar então o assomo generalizado de consciência em torno do mesmo ideal que grassa em todo o mundo como consequência dos últimos acontecimentos e arrebanhar as vontades dos 180 milhões de consumidores de drogas, «alimentados» que estarão agora muito provavelmente com um «ideal do eu» novo e declarar guerra, não à Espanha, mas ao terrorismo caseiro que nos bate à porta todos os dias, o terrorismo motivado pela toxicodependência?

Porque não agarrar a oportunidade e alargar o coro de protesto levantado em todo o mundo civilizado pelos bombardeamentos de Nova Iorque e Washington, a um domínio que mata todos os dias incomparavelmente muito mais gente que as cerca de quatro mil pessoas que pereceram um dia debaixo do betão das «torres gémeas» e do Pentágono?

Se toda a gente considera que o mundo mudou a 11 de Setembro, porque não há-de mudar também em relação ao cenário da droga?

Porque é que os indivíduos que dependem de drogas para «viver» não se hão-de sentir tentados a transcenderem-se a si próprios e a sentirem-se compelidos finalmente a respeitar a dignidade das pessoas a começar por si próprios, movidos que serão por um sentimento novo e porventura desconhecido de solidariedade?

Porque não abrirmos os olhos e deixarmo-nos sensibilizar uma vez por todas para o drama das famílias que vêm desaparecer os filhos, dia sim dia sim, às mãos de uma sociedade intoxicada, uma sociedade indiferente aos muitos «talibãs» que dela fazem parte e com os quais teima em contemporizar?

E, atenção!, não se pense que «talibãs» são apenas os narcotraficantes mais ou menos graúdos.

Verdadeiros «talibãs» são também todos aqueles que, não acreditando na recuperação dos que estão em dificuldade no terreno, daqueles que utilizaram a droga para se evadir precisamente por não aceitarem a «proposta» que a sociedade tinha para lhes oferecer, assassinam, com a sua atitude de repúdio, todo e qualquer projecto de vida.

Será que não fará sentido então extrapolar a afirmação do Presidente americano — «ou estão connosco ou estão com os terroristas» — e mobilizar vigorosamente a sociedade civil para uma cruzada contra esta tão omnipresente como moderna forma de terrorismo, contra esse inimigo insidioso que se move todos os dias por debaixo do nariz de cada um de nós e com o qual todos sem excepção, de uma maneira ou de outra, temos pactuado «na boa»?

Não será este um ideal porque valerá a pena lutar?

Somos de opinião de que neste campo deveríamos deixar de ser tolerantes, deveríamos deixar de respeitar o erro. A tolerância tem sido para muitos o respeito do erro — o que é estúpido. Como alguém disse, a estupidez deve ser livre, mas a estupidificação não!

Como deveríamos ser menos hipócritas. Por exemplo: tendo deixado o consumo de haxixe de ser ilegal no país, não deverá quem o comercializa passar a ser considerado comerciante tão honesto como qualquer outro?

Pois!

Até porque: não esqueçamos o que o recente laureado com o Nobel da Paz, Kofi Annan, dizia já em Junho de 1998: «O objectivo é eliminar ou reduzir significativamente a oferta e a procura da droga até 2008»; ou «a erradicação do abuso de drogas no Planeta é uma tarefa gigantesca, mas com as forças conjugadas das organizações humanas de todos os níveis e dos esforços de todos, conseguir-se-á avançar nessa direcção».

Passará em boa verdade em nosso entender por uma acção equilibrada entre erradicação, proibição, aplicação das leis antidroga, processos contra os traficantes, esforços para redução da procura — e pelo tratamento.

A propósito da erradicação, porque não aproveitar a empreitada afegã e encarregar alguns dos aviões americanos que se ocupam da pulverização agrícola para dizimar os campos de cultura de papoilas que não só sustentam a guerrilha afegã como são responsáveis por 65% da produção mundial de heroína, ou darem um salto à Colômbia — titular de quatro quintos de toda a produção mundial do mais lucrativo artigo de comércio do mundo, a cocaína — e, já agora, patentear vontade política para dar o mesmo tratamento às suas próprias plantações de «cannabis», responsáveis por cerca de 20% da produção mundial de haxixe, ferindo de morte no conjunto um comércio que mobiliza em todo o mundo cerca de 500 mil milhões de dólares?

Na realidade, uma sociedade livre de drogas será em nosso entender possível se conseguirmos convencer também os dependentes a tratarem-se.

«Talvez o único caminho para ganhar a ‘guerra da droga’ seja fazer mais para tratar as suas vítimas» («Newsweek», 12/2/01) 

De acordo com dados fornecidos pela American Cancer Society, nos últimos dois anos 40 milhões de americanos deixaram de fumar. Sendo que a nicotina é a droga mais viciante que se conhece (reconhecido pelos próprios heroinómanos e cocainómanos) e a responsável por um maior número de recaídas, apetece perguntar: se isto é de facto assim, será mesmo um bicho de sete cabeças a recuperação de alguém, independentemente da droga que consuma?

A resposta parece óbvia: não!

*Médico; proprietário de clínicas de desintoxicação

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