Expresso - 10 de Novembro História de uma geração «entalada»
A. Nogueira Leite
«Enquanto nos ocupamos como a nossa atarefada vida profissional e perdemos tempo em percursos intermináveis de casa para o trabalho e do trabalho para casa, não nos apercebemos (tal como os que imediatamente nos precederam) de que não tínhamos em casa um número suficiente de crianças para um dia, quando se tornarem contribuintes activos do sistema de segurança social, poderem pagar as nossas reformas.»
A GERAÇÃO a que pertenço - a das pessoas nascidas entre 1960 e 1970 - começou por ter imensa sorte.
Passámos a nossa infância no primeiro período do século XX em que a economia portuguesa realmente se aproximou da Europa e, depois, atingimos a adolescência num país já democrático e livre.
Iniciámos a nossa actividade profissional num novo período de prosperidade, com a adesão de Portugal às Comunidades e a consequente abertura da economia portuguesa a novos mercados, novos produtos e serviços e, em suma, maior prosperidade.
Parecíamos ser uma geração realmente bafejada pela sorte quando, de repente, nos começamos a aperceber que, pelo contrário, viríamos a ser uma geração sacrificada.
De início, porque os constrangimentos da lei do arrendamento urbano conduziram muitos de nós a um endividamento precoce e, por vezes, sufocante, para adquirir a casa no subúrbio a longas esperas do local de trabalho.
Enquanto alegremente embarcávamos neste sacrifício, as gerações mais velhas continuavam instaladas no centro das cidades pouco pagando por habitações que já só parcialmente ocupavam. À ineficiência gerada juntava-se uma elevada dose de iniquidade, sendo nós, colectivamente, prejudicados.
Simultaneamente, muitos de nós entraram num mercado de trabalho fortemente condicionado com uma legislação que protegia os que já trabalhavam e não os que ao mercado queriam aceder.
Assim, num país dado a expedientes e «faz-de-conta», muitos de nós habituámo-nos à sucessão de contratos a prazo em ocupações permanentes. Enquanto tal nos sucedia, as gerações mais velhas mantinham-se instaladas nos seus empregos mesmo quando apenas «aqueciam» os lugares que há muito ocupavam. Mais uma vez, a protecção de «direitos adquiridos» prejudicava colectivamente o mesmo grupo. Mais uma vez, à ineficiência juntava-se a iniquidade. Começávamo-nos a habituar a ficar com a fatia mais pequena dum bolo já de si pequeno.
Porém, se nada fizermos, se não reclamarmos a mudança, a principal injustiça que colectivamente nos atingirá ainda está para vir.
De facto, os que de entre nós, diligentemente têm vindo a cumprir as suas obrigações para com o Estado, têm acumulada uma média de vinte anos de pagamento das pensões dos avós, dos pais e dos tios.
Neste capítulo, tudo poderia estar bem se houvesse a perspectiva de que os nossos filhos viessem a poder fazer por nós aquilo que nós temos vindo a fazer pelos que nos precederam. Acontece que não vai ser possível!
Qualquer análise séria e isenta sobre a evolução do nosso regime de segurança social mostra à saciedade que a perpetuação do actual regime de transferência só pagará pensões decentes àqueles que nasceram entre 1960 e 1970 se acontecer um de dois cenários, ambos indesejáveis.
No primeiro cenário, são os nossos filhos que nos salvam aceitando pagar impostos substancialmente mais altos do que os (elevados) que pagamos. Nenhum pai, mesmo com bons filhos, se sente no direito de exigir tal sacrifício. Num segundo cenário, nada se altera excepto as nossas pensões que baixam drasticamente.
Neste cenário, ficaremos com a satisfação de não pedir o impossível aos nossos filhos, mas teremos de nos resignar a viver muito pior do que poderíamos viver caso usássemos as nossas contribuições, pelo menos parcialmente, em nosso favor. Viveremos mesmo muito pior do que colectivamente vivem os actuais pensionistas.
Resta-nos assim um terceiro cenário, que passa pela exigência de uma verdadeira reforma da segurança social evoluindo do actual sistema de repartição para um outro que permita manter um nível de solidariedade aceitável garantindo, simultaneamente, que cada um de nós possa ir afectando recursos para o período que inevitavelmente chegará em que teremos de viver com os resultados do que entretanto fomos acumulando.
Ou seja, só não ficamos para a história como a geração «entalada» se tivermos colectivamente a coragem de reclamar o fim da demagogia e do engano na Segurança Social.
A insustentabilidade financeira do actual regime, dada a evolução futura da demografia em países como o nosso, torna o problema puramente uma questão aritmética.
Enquanto nos ocupamos como a nossa atarefada vida profissional e perdemos tempo em percursos intermináveis de casa para o trabalho e do trabalho para casa, não nos apercebemos (tal como os que imediatamente nos precederam) de que não tínhamos em casa um número suficiente de crianças para um dia, quando se tornarem contribuintes activos do sistema de segurança social, poderem pagar as nossas reformas.
Essa responsabilidade vai ter de ser nossa e para que não nos «entalemos» definitivamente, temos de agir depressa.
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