Diário de Notícias -
31 Mar
08
Os pobres estão proibidos
João César das Neves
O mundo moderno orgulha-se da sensibilidade social e
preocupação com os necessitados. O Governo faz gala
nisso. O nosso tempo acaba de conseguir uma grande
vitória na vida dos pobres. Não acabou com a
miséria. Limitou-se a proibi-la. É que, sabem, a
pobreza viola os direitos do consumidor e as regras
higiénicas da produção.
A nova polícia encarregada de vigiar a interdição da
indigência é a Autoridade de Segurança Alimentar e
Económica, ASAE. Segundo as regras por que se rege,
grande parte dos pequenos negócios, empresas
modestas e produtos tradicionais, bem como as
vendas, bens e esmolas de que vivem as pessoas
carenciadas ficam banidas. É pena, mas não há lugar
para pobres na sociedade asséptica que pretendemos.
É evidente que as exigências impostas nos
regulamentos e fiscalizadas nas inspecções
impossibilitam a sobrevivência das empresas menores.
Obras necessárias, aparelhos impostos, dimensões
requeridas são inacessíveis, excepto às
multinacionais, grandes cadeias e empresas ricas,
que a lei favorece. Os pequenos ficam rejeitados.
Pode dizer-se que a actuação da ASAE constitui o
maior ataque aos pobres desde o fim da escravatura.
Alguns argumentam que não é esse o espírito da lei
nem o sentido da acção da Autoridade. Mas as
notícias recentes desmentem essa interpretação
favorável. O número de velhas tradições alimentares
agredidas é tal que deixou de ser novidade. A 14 de
Janeiro passado, a ASAE visitou o Centro de Dia de
Póvoa da Atalaia, Fundão. Aí impôs obras caras,
destruiu a marmelada que tinha sido oferecida pelos
vizinhos e levou frangos e pastéis dados como esmola
(Lusa, 06.03.2008). O jejum a que a Autoridade
condenou aqueles pobres velhos foi feito em defesa
da sua higiene alimentar. Parece que ter fome não é
contra os regulamentos do consumidor.
Para juntar insulto ao agravo, recentemente a
Autoridade lançou a sua "maior operação de sempre"
com prisões e apreensões para "celebrar o dia do
consumidor" (Lusa, 14.03.2008). Como os selvagens, a
ASAE celebra contando escalpes. Entretanto os
verdadeiros criminosos continuam a operar e a criar
problemas sanitários e ambientais. O mais trágico
nesta tolice monstruosa é que, enquanto anda a
perder tempo a perseguir os pobres, a ASAE descura a
sua verdadeira missão, que é mesmo muito importante.
Será que alguém pode ser tão estúpido, insensível e
maldoso? Esta hipótese nunca deve ser descartada,
sobretudo nos tempos que correm. Mas a explicação é
capaz de ser outra. Só um iluminado pode fazer erros
tão crassos. O que realmente se passa é que a ASAE
não se considera uma polícia nem se vê a perseguir
malfeitores. A sua missão suprema é educar o povo
para a segurança alimentar. A finalidade é mudar o
mundo. O seu objecto são, não os criminosos, mas
toda a população. O que temos aqui é um conjunto de
fanáticos com meios para impor às gentes ignaras o
que julga ser o seu verdadeiro bem. Desta atitude
saíram as maiores catástrofes da história.
Mas a culpa última não é da ASAE. Ela é responsável
pela arrogância, tolice e insensibilidade com que
aplica a lei. Mas a origem está nas autoridades
portuguesas e europeias que criaram um tal
emaranhado de ordens, regras e regulamentos que
impedem a vida comum. A incongruência e
irresponsabilidade da legislação, nas mãos de
fanáticos, criam inevitáveis desgraças. A lei
anula-se a si mesma. Ao promover o consumidor
esquece o produtor, ao favorecer o investimento
ignora o ambiente, ao cuidar do mercado desequilibra
a saúde. Quem queira cumprir à risca o estipulado
não sobrevive. Nem sequer quem o impõe: "Sede da
ASAE [no Porto] não cumpre regras impostas pela ASAE"
(JN, 17 de Fevereiro).
Numa sociedade democrática, a responsabilidade
última está nos eleitores. Os séculos futuros vão
rir de um tempo tão ingénuo que quis leis e
regulamentos para todo e qualquer aspecto da vida.
Esta obsessão legalista, mecanicista, materialista,
se nos traz ganhos importantes, acaba por asfixiar a
realidade. Como sempre, os pobres são os primeiros a
sofrer.