Público - 28 Mar
08
O novo casamento
Vasco Pulido Valente
Não sei se o meu currículo (quatro casamentos; dois
com a mesma pessoa) me impede de escrever sobre essa
venerável instituição, se ainda é venerável e,
sobretudo, instituição, que, suponho, seguindo o
admirável Zapatero e o amor nacional pelo "moderno",
o PS pretende agora reformar. O casamento era, para
o Estado, um compromisso legal e, para a Igreja, um
sacramento. Criava deveres, como criava direitos.
Mas, segundo Alberto Martins, parece que já não deve
assentar na lei, seja ela qual for sempre coactiva.
Deve assentar na consoladora liberdade do afecto.
Ou, por outras palavras, deve passar de um contrato
perpétuo a uma espécie de encontro temporário,
logicamente revocável, se o afecto de qualquer das
partes, por natureza etéreo e fugidio, deixar de
existir.
O PS também pretende abolir a culpa do processo de
divórcio, abolindo o divórcio litigioso. Para
começar, porque a própria noção de culpa tresanda a
cristianismo e à sua variante católica,
tradicionalmente obcecada pelo pecado da carne e
pela influência corruptora da mulher. E depois
porque a consciência contemporânea se emancipou da
culpa, quando não se trata de multiculturalismo ou
feminismo, de pedofilia ou de ambiente, ou, pior do
que isso, de um atentado cego e celerado contra o
nosso divino corpo, como por exemplo fumar um
cigarro. Aí o Estado não hesita em proibir e punir.
Quanto ao resto, o Estado pretende, e muito bem,
tornar fácil o prazer, que nos justifica e alimenta.
A inconveniência de um cônjuge ou o estéril
escrúpulo de o abandonar pode (vem nos livros)
coibir esse prazer. Declarar o afecto caduco resolve
o assunto.
Infelizmente, não ocorreu ao PS (como antes não
tinha ocorrido ao Bloco) que o novo casamento, se
merece a palavra, só beneficia a classe média
próspera. E, dentro da classe média próspera,
beneficia o homem mais do que a mulher, porque
evidentemente o homem ganha em média mais do que a
mulher. Quanto à multidão que sobra, e pela mesma
razão, a vantagem do homem é arrasadora. Fora que o
mercado de trabalho favorece o homem e desfavorece a
mulher (invariavelmente a última contratada e a
primeira despedida) e que a mulher fica em geral com
os filhos, um encargo sem preço. Dito isto, falta
esclarecer um mistério: para que serve agora o
casamento de homossexuais?