Público -
23 Mar
08
Saúde e política
António Barreto Retrato da semana
Quase trinta ministros da Saúde em pouco mais de
trinta anos dão estes resultados. Como também se tem
visto na educação
Esta semana, José Sócrates prestou um serviço a
todos os que estudam, analisam e comentam a vida
política portuguesa. Fez o previsível. Fez o que
muitos profetizavam. Fez o que a lógica mandava
esperar. Mas fez também o que, por ser tão
previsível, todos pensavam que não fizesse. Na
verdade, o primeiro-ministro surpreendeu com o
previsível. Ao mesmo tempo, contribuiu para o
enriquecimento empírico dos que estudam. Não basta,
na verdade, afirmar que os políticos, alguns
políticos, muitos políticos, marcam com demagogia o
início das campanhas eleitorais. É preciso provar.
Já não convence ninguém garantir, sem factos, que os
políticos, alguns políticos, tomam decisões fúteis
de esquerda (ou de direita), quando têm uma política
consistente de direita (ou de esquerda), a fim de
compensar eleitorados e recompensar sensibilidades
no próprio partido. É também preciso demonstrar com
factos. José Sócrates fez tudo isso. Fez demagogia.
Embasbacou a esquerda parlamentar, de quem obteve
aplausos. Calou a esquerda do seu partido, de quem
recebeu abraços e sorrisos. Prometeu muito e deu
pouco. Retirou um hospital público à gestão privada
e diminuiu o número dos que, no futuro, teriam
igualmente gestão privada. Nacionalizou a gestão do
hospital de Amadora-Sintra e de facto nacionalizou a
gestão dos que estavam na calha para serem postos a
concurso. Cessou o contrato de gestão no Amadora com
um grupo privado, mas confirmou o contrato do futuro
hospital de Braga, o maior do país, com o mesmo
grupo! Quase liquidou as parcerias público-privadas
de alguns hospitais, baixando de dez para quatro o
número de hospitais abrangidos e diminuindo os
prazos de trinta para dez anos nos hospitais já em
concurso. Reduziu parcialmente uma parte da minoria
das taxas moderadoras de alguns idosos ricos ou
remediados, dando inicialmente a entender que se
tratava de todos os idosos, sobretudo dos pobres
que, veio depois a saber-se, já estavam isentos.
Alterou assim o rumo político da saúde, tal como
este vinha sendo seguido por Correia de Campos e
pelo próprio Sócrates durante três anos. Recuou
politicamente. Mudou com oportunismo, a pensar nas
eleições e nas dificuldades que tem encontrado no
seu partido. Como se diz, tomou umas medidas de
esquerda, que aliás espera continuar,
paulatinamente, até às eleições de 2009.
Os socialistas, estes socialistas que governam, já
quase nada têm que os distinga, que lhes seja
próprio, que lhes pertença como património político.
São gestores, aliás, com poucas excepções, medianos
ou medíocres. Mas há dois ou três temas políticos
que os fazem gemer e tremer e que deixam as plateias
dos comícios e os corredores das secções em estado
de choque. Um deles é o Serviço Nacional de Saúde.
Não querem saber se dá prejuízo ou não. Se está bem
gerido ou não. Se salva ou mata doentes. Se atende
depressa ou se multiplica filas de espera. Se mantém
ou não elevados níveis de humanização nos serviços
de atendimento e de internamento. Se desperdiça
recursos ou é poupado. Se recompensa quem trabalha
ou dá prémios aos absentistas. Se permite ou não o
enriquecimento indevido de médicos e fornecedores.
Se fecha ou não os olhos à acumulação ilegal de
funções por parte dos funcionários. Se incita ou não
à promiscuidade entre sectores públicos e privados.
Se fica refém dos fornecedores ou se compra bem. Se
gasta, com um doente, mais ou menos do que um
hospital privado, convencionado ou não. Se os
indicadores revelam, por parte dos utentes,
satisfação ou descontentamento. Se há ou não sinais
de desigualdade social nos hospitais e nos centros
públicos. Se paga às farmácias, aos analistas, aos
médicos e aos fabricantes de equipamentos com ou sem
pontualidade. Se gasta ou não milhões de euros com
juros por atrasos nos pagamentos. Se as parcerias
público-privadas permitiram ou não a redução de
custos de construção, equipamento e gestão dos
hospitais. Se a construção, pelo Estado, de novos
hospitais vai ter ou não custos muito superiores aos
que obtêm os privados. Se os riscos do investimento
são do sector privado ou do sector público. Tudo
isso é razoavelmente indiferente aos socialistas que
acusam de "economicismo" todos os que desejam fazer
contas, verificar, avaliar e comparar. Como não
querem saber se o Governo cumpre os seus deveres e
os prazos de concurso, de adjudicação, de pagamento,
de inspecção e de avaliação. Nem pretendem saber se
foram criados conhecimentos e experiência de gestão
privada de hospitais que podem fornecer serviços
públicos. Querem lá eles saber! O importante é não
tocar no Serviço Nacional de Saúde, dizem com
emoção! Foi por causa deles (e dos comunistas) que
Sócrates anunciou as suas medidas de oportunidade.
Foi para compensar o alarido dos professores que o
Governo mudou a política de saúde. Acredita tanto no
que acaba de fazer como no seu contrário. Não
fundamentou as suas decisões. Não explicou em que
medida a gestão pública era melhor para os doentes
ou para o Estado. Não demonstrou a superioridade da
gestão pública. Não forneceu indicadores de
eficiência e de humanidade. Tudo isso lhe é também
indiferente. O que lhe interessa realmente são o
alarido e os aplausos.
Os mesmos governos, os mesmos primeiros-ministros e
os mesmos partidos têm políticas de saúde
diferentes. Tudo depende. Quase trinta ministros da
Saúde em pouco mais de trinta anos dão estes
resultados. Como também se tem visto na educação. As
guinadas políticas dos governantes têm o mesmo
efeito, ou pior, do que as reviravoltas a que se
assiste cada vez que há mudança de governo ou de
maioria parlamentar. Em menos de dez anos, já se
experimentaram três ou quatro modelos diferentes
para a gestão hospitalar. Não é possível obter ou
manter níveis de satisfação, de eficiência, de
poupança e de contenção, já para não dizer também de
honestidade, quando um sector de actividade como
este é abalado periodicamente por alterações tão
fundamentais. É assim que se oferecem recompensas e
estímulos irrecusáveis aos oportunistas e aos
comerciantes da consulta, da análise, do equipamento
e dos medicamentos. É assim que se desmoralizam os
operadores económicos e os profissionais sérios. É
assim, sobretudo, que se prejudica os utentes e os
cidadãos. Sociólogo