Público -
14 Mar
08
O que pode levar um governo a ficar na história?
José Manuel Fernandes
Conseguir acabar o mandato com um Estado que pese
menos na economia e orgulhando-se de ter diminuído
os vistos e pareceres que tolhem a vida dos cidadãos
De acordo com os últimos dados disponibilizados pelo
Eurostat, relativos ainda ao terceiro trimestre do
ano passado, pode verificar-se que entre o momento
em que este Governo entrou em funções (no final do
primeiro trimestre de 2005) e hoje a carga fiscal
suportada pelos portugueses subiu de 22,8 para 24,8
por cento do produto nacional bruto. No mesmo
período as contribuições dos cidadãos e das empresas
para financiar a Segurança Social passaram de 12,2
para 12,7 por cento. Isso significa que o essencial
do sucesso na redução do défice público se deveu ao
facto de o Estado se apropriar hoje de mais 2,5 por
cento da riqueza gerada no país por via dos impostos
e das contribuições sociais. Se considerarmos que no
mesmo período o peso do investimento público caiu de
2,7 para 1,7 por cento do PIB, chegamos à conclusão
de que o "milagre" das contas públicas se deve
sobretudo a ter-se cortado onde era fácil (no
investimento) e pedindo o resto do esforço aos
cidadãos e às empresas.
Até aqui nada de substancialmente novo. Como aqui se
tem escrito desde que o tema do défice se tornou
central na política portuguesa, uma coisa é
conseguir mantê-lo abaixo da fasquia de três por
cento do PIB, outra bem diferente é fazê-lo
diminuindo de forma sustentada a despesa pública.
Ora, o máximo que este Governo que agora comemora
três anos conseguiu até ao momento foi conter o
crescimento descontrolado da despesa corrente.
Tudo o que foi feito para reformar a administração
pública e as duas áreas que mais recursos públicos
consomem, as da saúde e da educação (deixando de
lado a Segurança Social, que é todo um outro mundo
de problemas), até ao momento pouco mais logrou do
que travar a marcha desenfreada para gastar mais e
mais. Ou seja, numa altura em que a contestação às
políticas do Governo cresce, os números parecem
indicar que só metade do caminho percorremos. Ou, se
se preferir, que tudo o que se conseguiu está preso
por arames, dependente de um crescimento económico
que se mantém anémico (e pode tornar-se ainda mais
anémico face à conjuntura internacional) e que as
forças parecem esgotadas para se ir mais longe.
Cabe pois perguntar: havia porventura um caminho
alternativo capaz de garantir resultados mais
sólidos? A resposta é positiva.
A razão por que existe um problema de défice público
quase insanável em Portugal, e que consome os
governos desde os tempos da Monarquia
Constitucional, deve-se ao facto de sermos um país
que não é apenas pobre, mas que é pobre porque
depende em excesso do Estado e vive em demasia com
os olhos postos no que os governos decidem ou não
decidem. Por isso qualquer governo que queira deixar
uma marca perene na sociedade terá de, ao terminar o
seu mandato, responder positivamente à seguinte
questão: o Estado pesa menos em Portugal e o governo
manda menos nos portugueses? Uma questão com duas
componentes indissociáveis.
Um Estado que pese menos na sociedade não é apenas
um Estado que gasta conjunturalmente menos e aperta
o cinto: é um Estado que se retira de todas as áreas
em que a sociedade se pode bastar. Um Estado que dá
mais liberdade aos cidadãos - para escolher a
escola, para escolher o serviço de saúde, para ter
opções na forma de poupar para as suas pensões -, um
Estado que facilita mais a vida aos empreendedores
diminuindo as milhentas barreiras que dificultam os
licenciamentos, um Estado que abdica de regulamentar
todos os pormenores da vida dos cidadãos é um Estado
que é mais eficaz no que é sua competência primeira
(fiscalizar) e, ao abster-se de planear e controlar,
abdica do que faz pior e do que gera mais
promiscuidade e corrupção.
Isto implica um governo que manda menos, ou, se
preferirmos, um governo a que se tem de recorrer
menos, um governo que não tem de optar entre
diferentes equipamentos hospitalares, nem de andar a
recomendar manuais escolares; antes devolve esse
poder a outros níveis de decisão, mais próximos dos
cidadãos, ou aos próprios cidadãos.
Um Estado assim necessitaria de muitos menos leis
torrenciais e milhares de despachos ministeriais, ao
mesmo tempo que responderia melhor às solicitações
do país com muito menos funcionários.
É por isso que as reformas não são boas só por serem
reformas e por emanarem de uma autoridade legítima:
são boas, se passarem no crivo de saber se deixaram
um país mais livre e empreendedor, ou se, pelo
contrário, o deixaram mais dependente dos poderes
públicos. É também por esta bitola que um dia este
Governo será julgado. Talvez não pelos eleitores,
mas pela história.