Público -
14 Mar
08
PSD debate mudança de fundo nas suas propostas de
políticas sociais
São José Almeida
A exigência de novas políticas sociais, nomeadamente
de incentivo à família, foi feita por Isabel Pedro e
Isilda Pegado, anteontem, na sessão em que o PSD fez
o balanço do Governo.
Convidadas por Luís Filipe Meneses, Isabel Pedro,
que será em breve anunciada como porta-voz do
partido para a família, e Isilda Pegado, que recusou
ser porta-voz para áreas sociais por ser a
presidente da Federação Portuguesa pela Vida,
fizeram duas intervenções fortes, apontando para
mudanças político-ideológicas, que deixaram
perplexos os militantes.
Isabel Pedro, autarca em Carnide, professora e
consultora do Instituto de Ciências da Família,
apresentou a sua análise da política de família, ou,
como explicou ao PÚBLICO, "a ausência de política de
família em Portugal".
Isabel Pedro sustentou que "os vários governos foram
insensíveis aos indícios" de crise e destacou o
aumento dos divórcios e dos nascimentos fora do
casamento. Isto, somado à baixa do casamento e à
baixa de natalidade - há 25 anos a percentagem era
de 2,1 filhos por casal, em 2006 foi de 1,36 -, cria
uma situação social grave que, para Isabel Pedro,
"não tem sido olhada com seriedade", pelo que "não
há medidas políticas que combatam a baixa
natalidade, os filhos fora do casamento e dêem
estabilidade à família".
A futura porta-voz do PSD para a família sublinha
que "com o PS houve uma mudança, já que este Governo
reconheceu que a natalidade é um problema". Mas
Isabel Pedro pensa que as medidas do Governo "não
atingem os objectivos e são contraditórias". E
defende: "Era preciso que houvesse uma política que
reconhecesse a família como base da sociedade e
criasse um ambiente propício a que as famílias
fossem fomentadas." Esta professora considera ainda
que as "medidas assistencialistas do PS" não são
para anular, "mas não chegam". E garante que "é
preciso mudar a apreciação sobre a família".
Em declarações ao PÚBLICO, em que explicou a sua
intervenção feita à porta fechada na sede nacional
do PSD, em Lisboa, Isabel Pedro enfatizou que "é
urgente" esta mudança e, como indicativo, citou
"muitos estudos que mostram que em situações como os
abusos sobre crianças, as gravidezes adolescentes, a
toxicodependência, a criminalidade há um factor de
risco comum, embora não o único, que são as famílias
desestruturadas".
E em relação a estas, afirmou que, "nem sempre, mas
muitas vezes há a ausência de um dos progenitores,
nomeadamente o pai".
Já Isilda Pegado centrou a sua intervenção nos três
anos de Governo Sócrates. Como explicou ao PÚBLICO,
preocupou-se em exemplificar o que vê como "um
caminho de estatização e de falta de liberdade", que
aproxima a sociedade portuguesa de "um modelo social
fora de uso, semelhante ao Bloco de Leste".
Como exemplo aponta a situação da Educação (ver
caixa). Outro exemplo dado por Isilda Pegado, que é
advogada, foi a Justiça. Afirmando que a lei de
apoio judiciário "prejudica quem é pobre", criticou:
"Esta lei define como pobre quem tem rendimento
inferior ao rendimento de inserção social, mas
depois estes pobres têm de pagar 30 euros por
consulta com o advogado!"
Presidente da Federação pela Vida e uma das
protagonistas da campanha pelo "não", Isilda Pegado
criticou também à lei de despenalização do aborto
aprovada após o referendo de 11 de Fevereiro de
2007. Afirmando que "a lei portuguesa não tem
comparação com as leis que existem na Europa",
concretizou: "A maioria dos países tem o aborto
legalizado, mas não como contraceptivo, as leis
estão balizadas e contemplam o direito à vida."
A prova de que o aborto, em Portugal, é visto como
contraceptivo é, para Isilda Pegado, o facto de o
consumo da pílula do dia seguinte ter baixado. E
conclui: "Portugal tem uma lei de aborto idêntica às
dos países de Leste."
Isilda Pegado criticou ainda a lei da procriação
medicamente assistida, que diz estar "apenas a
servir os interesses da indústria, sem preocupações
éticas". E mais uma vez compara com o antigo Bloco
de Leste: "É igual ao que se passava no Leste, em
que a ciência não obedecia a uma ética."