Diário de Notícias -
11 Mar
08
As maternidades não deviam
cheirar a éter
João Miguel Tavares
O Guilherme nasceu há dez dias no Hospital de Santa
Maria. É o meu terceiro filho. Graças a ele, fiquei
a fazer parte de uma elite cada vez mais elitista:
só uma em 20 famílias portuguesas tem três filhos ou
mais. Portanto, a partir de agora, podem esperar
textos sobre os escalões de IRS para famílias
numerosas (uma infâmia), a escassez do Estado no
ensino pré-escolar (uma vergonha) e a ausência de
apoios à maternidade (um escândalo). Sabem como é:
cada um queixa-se onde lhe dói. Mas, no caldo
político e social em que estamos mergulhados, a
falta de atenção em relação às famílias é realmente
extraordinária. E começa no dia um - o dia em que os
nossos filhos nascem.
Não me interpretem mal. As maternidades de Lisboa
estão cheias de médicos que sabem o que estão a
fazer, o parto correu muito bem, o bebé nasceu
fresquíssimo e dois dias depois a minha mulher já
estava em casa. Só que toda a competência técnica
revela, ao mesmo tempo, uma enorme escassez do
factor H - aquele pingo de humanidade que faz a
diferença entre o parto ser um obstáculo a
ultrapassar ou uma experiência a recordar. Em
Portugal, é um obstáculo. Uma operação cirúrgica
assim como se fosse uma apendicite. Aliás, desconfio
que a única coisa que neste país distingue uma
maternidade de um hospital é não se enviar para
incineração aquilo que se extrai da barriga.
Juro que não sou picuinhas. Quando se chega ao
terceiro filho já se exibem orgulhosamente as
feridas de guerra. Mas continuo sem perceber porque
é que os pais são tratados como um empecilho que é
preciso aturar: assinam papéis para aceitarem ser
escorraçados da sala de partos mesmo quando não
chegam a entrar nela (não podem assistir às
cesarianas); têm de ameaçar imolar-se à porta de
entrada só para saberem se a mulher que desapareceu
há duas horas já levou a epidural; são informados do
nascimento via fax (a sério) uma hora depois de o
bebé ter efectivamente nascido; só podem ir ter com
a mãe e com o filho à enfermaria a partir da uma da
tarde e são tratados como qualquer visita;
enxotam-nos para fora do quarto sempre que uma
enfermeira entra para medir a tensão, mudar o soro
ou enfiar mais uma cama; e nem sequer ao refeitório
têm autorização de acompanhar a mulher, com medo,
sabe-se lá, que acabem a roubar a sopa das outras
parturientes. Tudo isto é um absurdo em pleno século
XXI. Quando por toda a Europa se procura transformar
o parto num acto íntimo e familiar, por cá as
crianças continuam a nascer imersas em éter e num
profissionalismo frio como a lâmina de um bisturi. O
País não é grande coisa, é certo, mas ao menos podia
receber os seus filhos com alguma alegria.