Ecclesia -
08 Mar 08
Assinalar a complementaridade no Dia
Internacional da Mulher
Assinala-se hoje, internacionalmente, o Dia da
Mulher. Dia em que a sociedade clama a igualdade
entre géneros e pede o reconhecimentos de direitos.
Poderá o imperativo da igualdade entre os géneros
masculino e feminino conduzir a um empobrecimento
grande da condição da mulher?
Maria Teresa Ribeiro, Docente de Psicologia na
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da
Universidade de Lisboa e colaboradora do Instituto
de Ciências da Família da Universidade Católica
Portuguesa, considera que sim.
Esta mulher, professora, considera que o "chamamento
para a igualdade dos géneros tem o grande risco de
anular as diferenças". O caminho não pode ser feito
através do "extremar diferenças pois o risco é que a
relação entre os géneros seja demasiado pautada pela
rivalidade e luta pelo poder".
No entender da docente faz todo o sentido o respeito
pela especificidade de cada um, "percebendo a
complementaridade e reciprocidade entre homem e
mulher".
Recentemente, Maria Teresa Ribeiro esteve no
Vaticano a representar a Conferência Episcopal
Portuguesa num Congresso que propunha celebrar os 20
anos da Carta Apostólica Mulieris dignitatem. O tema
deste encontro foi "Mulher e Homem – o humano na sua
inteireza".
"Claramente se pretendia acentuar o respeito pela
diferença", mas percebendo que "todos temos a ganhar
com a complementaridade".
Maria Teresa Ribeiro lembra que a origem da criação
une homem e mulher. "Do ponto de vista ontológico há
uma igualdade", mas somos diferentes "geneticamente
e biologicamente", o que traduz numa diversidade em
traços psicológicos e em comportamentos, "que não
são melhores ou piores comparativamente, mas
complementares".
O que está em causa "é a unidade entre os dois, pois
há um chamamento à comunhão".
Iguais ou inferiores
Algumas ideologias dominantes na sociedade "estão
interessadas em ofuscar a distinção entre homem e
mulher", afirma a docente de psicologia.
Numa luta pela igualdade, onde se inserem também
comportamentos machistas, grande parte da luta pela
dignidade da pessoa "acaba na definição da
identidade da mulher e na identidade do homem".
Ao pretender eliminar as diferenças sexuais que
estão de facto inscritas na natureza humana,
considerando-as unicamente culturais, "não se luta
pela igualdade, chegando mesmo a promover a
inferioridade das mulheres e homens".
Maria Teresa Ribeiro considera que há ainda muitos
aspectos a percorrer, pois há muitos áreas que se
opõem à dignidade da mulher.
"Há uma mentalidade machista que ignora a novidade
trazida pelo cristianismo que clama a igualdade,
dignidade e responsabilidade", mas não se pode
esquecer que em muitas culturas a mulher vive
descriminada.
Actos de violência contra a mulher e a forma como o
género feminino é tratado na publicidade e na
indústria do consumo são exemplos que persistem em
sociedades tanto orientais como ocidentais.
Sobre o papel da mulher dentro da Igreja, Maria
Teresa Ribeiro lembra que "tudo está aberto às
mulheres nos dias de hoje". Esta é uma novidade do
nosso tempo, porque deriva de uma luta, no entanto
"as mulheres têm talentos que não estão a ser
usados".
A participante no Congresso no Vaticano recorda uma
fase usada no plenário que indicava "às mulheres,
nós humanos devemos tudo".
"Perceber isto, tem de ter implicações na forma como
a mulher é acolhida e entendida na Igreja".
Maria Teresa Ribeiro enfatiza o apelo às mulheres
para se colocarem ao serviço da família, do
apostolado no mundo, no mundo do trabalho, da
cultura, da sociedade e da política, numa
perspectiva designada por João Paulo II de «génio
feminino».
As capacidades intelectuais e a capacidade de
"conciliar razão e sentimento", é "a novidade
feminina, que procura perceber o que muitas vezes é
invisível".
Ao longo da história da Igreja, a mulher tem
desempenhado um papel importante como educadora.
"Este aspecto é de continuar a salientar, tanto na
família, como nas escolas e universidades, em
instituições assistênciais, nas paróquias, em
movimentos ligados à Igreja, em hospitais",
exemplifica, lembrando que "tudo isto está ao
alcance de todas as mulheres" e que estas funções
"são efectivadas todos os dias, nas tarefas mais
simples".
Para além do aspecto da mulher educadora, há também
a dimensão religiosa, "numa forma muito específica
de transmitir a fé", reveladora de uma sensibilidade
para o transcendente.
O Congresso no Vaticano foi fundamental para "apelar
e despertar consciências para o papel que as
mulheres podem ter para a edificação das estruturas
económicas e políticas mas que sejam mais ricas de
humanidade", salienta a docente.
"Há muitas mulheres capazes de defender o primado do
ser em relação ao fazer".
Maria Teresa Ribeiro salienta que não houve eco para
que tanto homens como mulheres desempenhem o mesmo
papel dentro da Igreja.
"Não por fechamento, mas porque se compreende que
são papeis diferentes, que isto não significa ser
inferior, mas que ambos têm missões específicas".
"Não se trata de uma rivalidade". Por isso a docente
aponta que o papel da mulher não passa por exercer o
sacerdócio, mas por muitas outras coisas
importantes.
A mulher na família
A maternidade e a família são grandes desafios para
a mulher. Maria Teresa Ribeiro considera que "não
estão a ser protegidas e valorizadas pela sociedade
e pelas políticas".
A maternidade e a família "são dádivas, mas é também
um serviço prestado à comunidade". A mulher pode ter
um papel fundamental na "revalorização do casamento,
da família e da maternidade".
Há conquistas notáveis, mas "constatamos mulheres
exaustas que querem acumular todos os papéis",
indica.
A maioria das mulheres trabalha e quer ter uma
família, tentando conciliar tudo. Isso só é possível
se "houver da parte dos homens uma compreensão do
seu papel fundamental, na descoberta do que é a
paternidade".
"As mulheres serão melhores mães se eles forem
melhores pais também. Se forem presentes e não
colocarem o trabalho acima da família".
Maria Teresa Ribeiro indica que grande parte dos
problemas sociais que existem hoje em todo o mundo,
estão relacionados com estruturas familiares que se
vão desfazendo, por isso "não basta reconhecer, esta
reflexão tem de passar por actos, que implica a
partilha de tarefas, de responsabilidades na
educação de uma família".
Maria Teresa Ribeiro indica que o Dia Internacional
da Mulher deve servir, para além de despertar
consciências e chamar a atenção para a necessidade
de mudanças, para "transmitir uma mensagem
positiva".
"É possível ser mulher e homem de acordo com os
desígnios de Deus, respeitando a especificidade de
cada um, e este projecto gera famílias felizes".