| Diário de Notícias - 31 Mar 05
Não
podemos continuar a ignorar
Manuel Monteiro
O que é mais importante para os cidadãos?
Liberdade ou a segurança? Se, no limite, tivéssemos de optar, sobre
qual recairia a nossa escolha? Dirão alguns que a pergunta não tem
sentido e que até pode dar a ideia de incompatibilidade entre os
dois valores. Numa época em que ousar pensar diferente é perigoso,
correcto será afirmarmos a segurança como um pressuposto da
liberdade e proclamarmos a liberdade como um bem inegociável.
Acontece que em nome da segurança, a liberdade vem diminuindo e
apesar disso o crime vem aumentando. Paradoxal? Talvez, mas uma
realidade que não podemos continuar a ignorar.
A utópica busca dum certo mundo novo, traduzida pela adopção de
políticas públicas erradas, ao longo dos últimos 50 anos, tem
conduzido muitos países europeus para situações graves. É agora raro
o dia em que a tranquilidade dos cidadãos não seja abalada e
Portugal começou a deixar de ser a excepção a essa horrível regra. A
conversa do país de brandos costumes parece ter terminado! O crime
já mora na nossa terra e há zonas nas principais cidades e fora
delas onde vigora a lei do mais forte e a força da lei pouco ou nada
se faz sentir. Mas sendo a insegurança em muitos cidadãos notória,
nas polícias ela é também um facto.
E tudo isto porquê? As razões são várias. Políticas urbanísticas que
conduziram ao despovoamento do centro das principais cidades, a que
não é alheia uma lei de arrendamento desadequada a qualquer país
civilizado; desincentivo ao crescimento das famílias,
contribuindo-se para um acelerado envelhecimento da população; obras
públicas fomentadas pelo Estado com recurso a mão-de-obra barata,
proveniente de países terceiros, e consequente abandono, finda a
empreitada, dos trabalhadores; construção de armazéns de pessoas,
baptizados de bairros sociais; dualidade de critérios face ao
comportamento dos polícias e dos criminosos - se um polícia dá um
tiro é um crime, se um criminoso dispara é uma vítima da sociedade.
As consequências estão pois à vista. Quando a população é mais
idosa, logo mais desprotegida, as exigências quanto à segurança
crescem; quando se abrem as fronteiras à entrada indiscriminada de
pessoas, para que as obras do Estado se realizem a baixo custo, mas
depois não se tem a capacidade para integrar os imigrantes ou a
coragem para os mandar embora, fomenta-se o surgimento de gangs
e dão-se soldados para o exército do crime; quando, enfim, não se
incentivam as polícias e não se prestigia o seu trabalho, permite-se
que o desinteresse pelo cumprimento integral das suas missões se
avolume e que os cidadãos inocentes se revoltem.
No meio de tudo é curioso constatar que as causas da morte de
polícias, da violação de mulheres e crianças, do roubo de idosos,
sejam filhas de pai incógnito, já que os responsáveis políticos pela
situação se apresentam à opinião pública como virgens inocentes.
Confessos adeptos da teoria do bom selvagem e da maldita sociedade,
estes paladinos do utópico mundo novo estão, ironicamente, a
destruir os regimes em que dizem acreditar. Estão afinal a esquecer
que a segurança pode ser uma aliada da liberdade, mas a insegurança
é inimiga da democracia. É que quando nos sentimos seguros
apreciamos ser livres, mas quando não possuímos segurança o regime
pode ser-nos indiferente. A democracia, tal como a vimos conhecendo,
corre sérios riscos de falir! Se as empresas privadas de segurança
têm, no presente, taxas de crescimento assinaláveis, isso significa
que o Estado democrático deixa, passo a passo, de exercer cabalmente
a sua função, no que respeita à protecção dos cidadãos e respectivos
bens. Ora, nestas circunstâncias, são as pessoas mais indefesas,
mais pobres, mais vulneráveis as que mais sofrem, porque são elas,
precisamente elas, que não têm meios para contratar segurança
privada. E se assim é, o regime continua a ser democrático?
Parece-me que não, já que a igualdade de direitos e a protecção
desses mesmos direitos estão postas em causa. A República trai-se a
si própria ao permitir que alguns dos seus mais importantes
alicerces sejam destruídos. Não nos admiremos, pois, se um destes
dias a segurança valer mais do que a liberdade e esta for um luxo de
gente rica ou apenas muito rica!
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