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Público - 28 Mar 05
Por um referendo
diário sobre o aborto
António Pinheiro Torres
Neste e noutros referendos sobre o aborto a única resposta que
faz sentido, corresponde aos desejos do coração humano
São muitos os argumentos para negar pertinência a
um novo referendo sobre o aborto.
O direito à vida, como primeiro e condição dos restantes direitos
humanos, não pode ser, por uma questão de princípio, objecto de
referendo a não ser que desejemos recuar séculos na história e
deitar fora todas as noções de dignidade e igualdade das pessoas
humanas. Em 1998 o povo português já decidiu e a única coisa que
mudou foi a "subida de tom" dos abortistas e o empenho de uma
comunicação social que lhes é francamente favorável. Antes do último
debate parlamentar em Março de 2004 os partidários do novo referendo
andaram oito meses, com exaustiva cobertura dos "media", para
recolher 122 mil assinaturas, enquanto aqueles que se opõe a uma
modificação da actual lei, reuniram 217 mil assinaturas em apenas
quatro semanas. E por ai adiante.
Mas, paradoxalmente, faz falta mais do que um referendo sobre o
aborto. Faz falta que a questão se ponha realmente na sociedade
portuguesa e de uma vez por todas sejam obtidas respostas
inequívocas. Isto é que todos os dias os portugueses, e quem nos
governa, se ponham e respondam à questão: "Concorda que em Portugal
seja possível uma mulher dizer: "eu abortei porque não encontrei
quem me ajudasse"?". Ou "Concorda que o trabalho de apoio às
grávidas em dificuldade e no acolhimento de crianças que a sociedade
civil desenvolve, não encontre quase nenhum apoio do Estado?". Ou
"Concorda que o Estado não sinta qualquer responsabilidade perante
uma rapariga pressionada pelos seus parentes ou um namorado
irresponsável a abortar, e a deixe sem ninguém a quem recorrer?". Ou
"Concorda que o Estado esteja disposto a dar mensalmente 50 contos a
uma família de acolhimento de uma criança e os negue aos pais da
mesma?".
Como também faz falta outro referendo com a pergunta: "Concorda que
o problema do aborto não seja conhecido na sua real extensão, para
além dos discursos ideológicos, e que a realização de um estudo,
consensual entre todos os partidos, com excepção dos comunistas, se
arraste na Assembleia da República?". Na mesma ocasião (seguindo o
princípio da poupança eleitoral) se poderia juntar algumas outras
perguntas, como, por exemplo: "Concorda que sistematicamente
aconteça na sociedade portuguesa que os "técnicos" e os "moderados"
digam "vamos consentir nisto como excepção e não como prática
recorrente" e depois se verifique, como aconteceu na pílula do dia
seguinte, que a prática é generalizada, os números assustadores e se
está perante um "rombo" nas políticas de saúde pública?".
Ou então "Concorda que Portugal seja o único país do mundo onde se
faz um escândalo pelo facto de mulheres serem julgadas, em claro
desrespeito pelos mais elementares princípios da igualdade de
género?". Poder-se-ia na mesma ocasião perguntar ainda: "Concorda
que grupos de radicais vão para a porta dos tribunais dizerem que
fizeram abortos as pessoas que estão lá dentro a defenderem-se da
acusação, negando a prática desse crime?" ou "Concorda que seja
considerado apenas um assunto de mulheres, a gravidez e o aborto,
apesar de ser do mais elementar conhecimento que existem sempre
homens envolvidos?".
Por fim, uma última pergunta: "Concorda que um Governo que no seu
programa se afirma determinado a mudar o regime legal do aborto, não
tem uma linha sobre o apoio social às grávidas em dificuldade e não
mais de cinco linhas sobre a educação para a cidadania e a saúde?".
Neste e noutros referendos sobre o aborto a única resposta que faz
sentido, corresponde aos desejos do coração humano e não tenta
dobrar a realidade a propósitos ideológicos, é a de um rotundo Não!
Todos os dias, empenhando as nossas vidas, essa é a campanha que
fazemos, num referendo diário, pela defesa da Vida. Movimento Juntos
pela Vida
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