Público - 5 Mar 04
A Fuga de Cérebros
Por JOSÉ MANUEL FERNANDES
"Investigação: porque é que a fuga de cérebros ameaça a França". Assim
anunciava o "Le Monde", a toda a largura da sua primeira página da edição
com a data de 3 de Março as páginas especiais que consagrava ao drama hoje
vivido na Europa: os seus melhores estão a partir para os Estados Unidos.
Pior: a antiga preponderância europeia na produção de ciência está
ameaçada pela emergência da Índia, da China e do Japão.
O pretexto para o trabalho é a crise que estalou entre os investigadores
franceses e o Governo. Os dados recolhidos vão porém muito para além da
França e são inquietantes quando percebemos que passaram quatro anos sobre
a Cimeira de Lisboa e que a estratégia aí definida - fazer da economia
europeia em 2010 a economia do conhecimento mais competitiva do Mundo - é,
para já, um monumental falhanço.
Nessa altura, a União Europeia investia 171 mil milhões de euros em
investigação - os Estados Unidos 315 mil milhões; nos EUA o investimento
em investigação e desenvolvimento estava a crescer, na UE estava
estagnado. Daí que dos 1200 investigadores mais prestigiados do Mundo, 700
investigassem nos Estados Unidos.
Entretanto o Japão, apesar da estagnação económica, acaba de estabelecer
uma ambição: conquistar 40 Prémios Nobel nas diferentes áreas da ciência
até 2050, isto é, quase um por ano. Na China, na década de 90, o número de
investigadores foi multiplicado por dez e a potência emergente não teve
dúvidas: em quase todas as áreas, os seus laboratórios escolhem
laboratórios americanos para trabalharem e publicarem em conjunto.
Já na Europa, com raras excepções - como a Finlândia e a Suécia -
continuava-se a não apostar no rápido crescimento do investimento em
investigação. A não conseguir atrair fundos estrangeiros. A tudo depender
demasiado dos Estados e a existir uma insuficiente contribuição das
empresas para o esforço de investigação e desenvolvimento. E as suas
universidades a verem os seus melhores alunos partirem.
O problema é ainda mais grave quando passamos ao detalhe e percebemos que
o que diferencia boa parte da Europa dos Estados Unidos e da Ásia não é
apenas a quantidade de dinheiro que colocam nas mãos dos investigadores,
mas o esclerosamento das suas estruturas universitárias e laboratoriais.
Em França, por exemplo, de acordo com um economista que militou nas
juventudes comunistas mas emigrou para Harvard para poder crescer
cientificamente, Philippe Aghion, as instituições são arcaicas e próprias
de uma economia em perda de velocidade, não de uma economia inovadora. O
diagnóstico está num relatório que preparou para o governo francês e que
se pode resumir numa outra sua frase: "passar de um laboratório parisiense
para Harvard é como passar de uma mercearia de bairro para um
supermercado".
Philippe Aghion falava ao "Le Monde" sobre a França. Se viesse a Portugal
morreria de susto, pois investimos muito menos, muito pior e com muito
menos resultados. Com a agravante de as empresas ainda estarem mais
ausentes e as universidades ainda serem mais arcaicas.
Por isso, quando ouvimos falar do sucesso de um investigador português nos
EUA - e há tantos - não devíamos sentir orgulho: devíamos antes procurar
saber porque é que ele teve de ir para os Estados Unidos. Percebendo-o
perceberíamos porque é que a Europa está a ficar para trás - e, na Europa,
Portugal a ficar ainda mais para trás. [anterior] |