Expresso OnLine - 26 de Março

Aborto politicamente correcto

António José Saraiva

O «Diário de Notícias» de ontem titulava em manchete «Aborto afecta uma em cada 200 jovens».
Ao ler este título, qualquer coisa me soou estranha.
«Aborto afecta»?
Será o aborto comparável a uma artrose ou a uma sinusite?
Se dissermos «Artrose afecta 5 em cada 100 portugueses» está correcto.
A artrose (como a sinusite ou outra doença qualquer) atinge uma pessoa independentemente da sua vontade.
O aborto, não: depende da vontade da pessoa que o pratica.
E está relacionado com um conjunto de actos que dependem em grande parte de opções dessa pessoa.
Por isso, escrever «aborto afecta» só é explicável pela moda do politicamente correcto que tomou conta da maior parte dos comentadores e da maior parte dos jornais.
Ao escrever «aborto afecta», o jornalista que fez o título pretendeu desresponsabilizar as jovens que praticam aborto.
Mas, ao fazê-lo, induziu os leitores em erro.
O título certo, o título adequado à notícia, seria: «Uma em cada 200 jovens já fez aborto».
Mas foi exactamente a esse titulo que o jornalista quis fugir.
Porque pretendeu passar a ideia de que o aborto é qualquer coisa que cai em cima das jovens, independentemente da sua vontade e das suas opções.
Sinais dos tempos... ou daquilo a que eu já chamei uma «cultura da irresponsabilidade».

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