Diário de Notícias - 8 de Março

Mães da Lombardia optam por ficar em casa

MANUELA PAIXÃO (na Lombardia)

Não querem mais flores, desfiles pelas ruas, ramos de giesta amarela, como homenagem ao Dia da Mulher, nem sequer confraternizações só entre mulheres, para celebrarem o 8 de Março: no Norte industrializado de Itália, sobretudo em Milão, capital financeira do país, o que elas querem é acompanhar as famílias.

Perante o dilema de dar tempo aos filhos, à casa e ao marido ou conseguir conciliar esta faceta com a profissão, muitas mulheres têm preferido, nos últimos anos, ficar em casa. São quase seis mil as novas mães da região da Lombardia que, em 2001, se despediram dos empregos, depois de uma primeira maternidade, o que traduz um aumento de 800% relativamente ao ano anterior.

"Espero que ninguém me ofereça flores, em particular a mimosa, neste 8 de Março. Nos anos 90 falou-se muito, mas, de facto, as mulheres não deram passos em frente no que diz respeito à política ou situações de poder, nem sequer na facilidade de conciliar família e trabalho. Cada ano que passa, pergunto-me: "mas quem me obriga?"", diz Gianna Martinengo, empresária e membro da direcção da Assolombardo, a mais importante associação italiana de empresários.

A lei "8 de Março", sobre a conciliação entre o trabalho e a família, estabelece regras que dão o direito à mãe de ficar em casa durante cinco meses pagos e outros seis facultativos e a possibilidade da escolha do pai para ausência no trabalho, durante cinco meses. Mas na Lombardia, em 2000, apenas 182 pais pediram a licença de paternidade. Para além disso, na terra de Umberto Bossi, são pouquíssimas as empresas que adoptaram medidas para conciliar o trabalho e as exigências familiares.

Mas há excepções, como Gregório Grasso, guarda municipal, de 40 anos, pai de dois filhos e que, após o nascimento do último, decidiu ser ele a ficar em casa, tomando conta do recém-nascido e ocupando-se das tarefas domésticas. "Todas as minhas amigas invejam-me, porque o meu marido ajuda em casa, toma conta das crianças, faz tudo e até melhor do que eu", explica a mulher de Grasso, Maria Luiza, de 37 anos, empregada numa loja de roupa.

"Esta situação não tem nada de especial. Afastei-me do trabalho só por um tempo, o necessário para ajudar em casa a seguir ao nascimento do mais pequeno. Tem-se revelado uma experiência muito positiva. Descobri que ser pai é óptimo, gosto mesmo muito. Os trabalhos caseiros não são um problema e os pais estabelecem uma relação muito especial com os filhos. Antes, só queriam a mãe. Agora, também já sabem que é o mesmo ser a mãe ou eu", adianta, todo contente, Gregório Grasso. E acrescenta: "No trabalho, houve muitos que faziam troça e que me perguntavam, quando me viam, quem é que realmente usava calças em minha casa. Outros diziam que era um expediente para não trabalhar, mas posso garantir, agora, que em casa se trabalha mesmo."

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