Diário de Notícias -
28 Mai
08
Dívida total das famílias chega a 129% do que
ganham por ano
Paula Cordeiro
O elevado nível de endividamento dos portugueses
pode limitar a sua capacidade de ajustamento a
crises, numa altura em que as taxas de juro não
param de subir. O endividamento dos particulares já
atingiu os 129% do seu rendimento disponível anual,
ou seja, a dívida total das famílias é superior em
29% ao seu rendimento de um ano, sem impostos.
Em 2006, este valor era de 123%, o que significa que
os portugueses aumentaram as suas dívidas à banca em
11,2 mil milhões de euros, no último ano. A dívida
total dos particulares à banca era de 147,9 mil
milhões de euros no final do ano passado, ou seja,
91% do PIB.
Estes dados foram ontem revelados pelo Banco de
Portugal, no seu Relatório de Estabilidade
Financeira de 2007. O supervisor considera que,
ainda que o quadro financeiro das famílias não ponha
em causa a estabilidade do sistema em geral,
detectam-se "algumas situações de vulnerabilidade,
sobretudo nos estratos mais jovens e de rendimento
mais baixo".
O Banco de Portugal ressalva, no entanto, que estas
famílias têm uma participação relativamente limitada
no mercado do crédito. Por outro lado, destaca os
"níveis historicamente reduzidos" do incumprimento
na carteira de crédito dos bancos, apesar de, no
primeiro trimestre deste ano, o rácio de
incumprmento ter subido 5,5%, passando de 1,8 para
1,9% dos empréstimos totais a particulares.
Para a autoridade de supervisão, os principais
riscos para a estabilidade financeira em Portugal
são a incerteza quanto à duração, extensão e
implicações da turbulência nos mercados financeiros.
O elevado nível de endividamento das famílias,
refere ainda a instituição liderada por Vítor
Constâncio, "poderá estar a constituir uma restrição
activa para a evolução do consumo privado e do
investimento residencial". Uma situação que tenderá
a agravar-se, num quadro de aumento da
restritividade na concessão de crédito, como
consequência das dificuldades de financiamento
enfrentadas pelos bancos.
O Relatório refere ainda, no quadro de uma menor
procura no mercado imobiliário, que não existe "uma
sobrevalorização dos preços da habitação em
Portugal, que têm registado taxas de crescimento
muito moderadas ao longo dos último anos (negativas
em termos reais)", ao contrário do que se observa
noutros países.
Poupança volta a cair
Em 2007, registou-se uma redução da taxa de poupança
dos portugueses. De acordo com o Relatório de
Estabilidade, esta taxa, quando medida em
percentagem do rendimento disponível dos
particulares, fixou-se nos 7,9%, contra 8,4 % no ano
anterior.
Já no que respeita à sua relação com o PIB, a taxa
de poupança foi de 5,5%, quando em 2006 tinha sido
de 6%. Mais um dado que indicia um maior recurso ao
financiamento nos mercados internacionais, por parte
dos bancos, agravando a posição do País face ao
exterior.
Do lado das empresas, a situação também não
melhorou. A dívida total destas atingiu os 114% do
produto interno bruto (PIB) em 2007, enquanto a sua
poupança corrente, em percentagem do PIB, baixou
para 4,3%, contra 5% em 2006. Referindo-se ao sector
bancário, o Banco de Portugal defende um reforço dos
fundos próprios dos bancos portugueses, para fazer
face às incertezas que persistem nos mercados
financeiros. "As perturbações nos mercados
financeiros deverão continuar a afectar
negativamente a rendibilidade dos bancos", refere o
documento.
O Relatório de Estabilidade considera ainda que a
actual conjuntura "não é favorável à realização de
operações de fusão e aquisição, que nos últimos anos
tinham contribuído de forma bastante positiva para
os resultados dos bancos".