Açores.net -
27 Mai
08
Natalidade - Angra
e Praia entre as câmaras sem medidas de apoio à
família
João Moniz
Associação das
Famílias Numerosas perguntou às 308 câmaras do País
que medidas de apoio à família aplicam nos seus
concelhos. Destas, 127 não responderam, das quais
sete açorianas, nomeadamente Angra do Heroísmo e
Praia da Vitória. Ao contrário dos dois municípios
terceirenses, Ponta Delgada e Horta têm tarifários
da água com descontos para os agregados com mais
pessoas.
A realidade está
longe de ser nova e há muito que os alertas se
sucedem: o País está a ficar envelhecido, fruto de
uma a esperança de vida cada vez maior e de uma
natalidade em queda.
Há 25 anos que
Portugal atravessa uma enorme e crescente crise
demográfica, que faz com que haja já um défice de um
milhão de jovens e crianças, resultado da diferença
entre o número de crianças que deveriam ter nascido
para repor a população (índice sintético de
fecundidade de 2,1) e as que efectivamente nasceram
(o índice sintético ficou-se pelos 1,32 em 2007).
Uma realidade que remonta a 1983 - primeiro ano em
que o índice ficou abaixo dos 2,1 - e que se tem
acentuado com o tempo.
No ano passado, pela
primeira vez em décadas, Portugal registou um
crescimento negativo, com mais mortes (103 727) do
que nascimentos (102 213). Esta situação, alerta a
Associação Portuguesa de Famílias Numerosas (APFN),
está a gerar no país enormes problemas, como o
encerramento de escolas, que por sua vez leva ao
desemprego de professores, ou o fecho de
maternidades, passando ainda pelo despovoamento e
pela crise no imobiliário.
Mas a questão mais
premente está relacionada com o descontrolo do
sistema de segurança social. Portugal já é o sétimo
país mais envelhecido da União Europeia e, a manter
o ritmo actual, dentro de 25 anos terá 242 idosos
por cada 100 jovens, o que colocará em causa o
pagamento de pensões.
Perante este cenário,
a APFN fala numa forte tendência de agravamento, uma
vez que o défice se tem acentuado e gera um travão
que se reproduz - menos crianças e jovens, menos
mulheres em idade reprodutiva, menos potenciais mães
que, aliadas a um índice sintético de fecundidade
baixo, faz com que cada vez haja menos crianças a
nascer
Autarquias têm
papel fundamental
Ao contrário do que
se possa pensar, não são as famílias que desejam ter
poucos filhos. O último inquérito à Família e à
Fecundidade, realizado pelo INE em 1997, indicava
que o número de filhos desejado pelas famílias é de
2,1 pelo que a APFN conclui que a realidade das
políticas públicas para a família possui um claro
déficit penalizador das famílias com filhos. Por
outro lado, refere a associação, assiste-se hoje a
uma crescente degradação das famílias com graves
consequências: aumento da insegurança, da
delinquência e criminalidade, da toxicodependência,
do alcoolismo e da pobreza, do insucesso escolar,
que importa encarar de frente.
Cada vez mais cedo
crianças e jovens que se encontram desprotegidos são
apanhados em situações de delinquência e
comportamentos aditivos.
Assim, torna-se
necessário investir seriamente no fortalecimento e
capacitação das famílias para fazer face a estas
importantes ameaças.
Só agindo de forma
integrada, tendo presentes as várias funções que é
importante que a família desempenhe, será possível
proteger social, económica e juridicamente a
família, criando uma envolvente que lhe permita
prosseguir o seu papel, contando com a segurança e
estabilidade necessárias para tomar as suas decisões
de forma livre e responsável. É, portanto, fulcral a
importância de serem desenvolvidos planos integrados
amplos que, de forma transversal, articulem um
conjunto de medidas. É neste capítulo que entram os
municípios.
Diz a APFN que as
autarquias têm um papel fundamental na questão do
apoio concreto às famílias, quer pelas medidas que
criem directamente, quer agindo junto do Governo no
sentido de dar contributos e sugestões para acções
governativas. Além de que estando mais próximas dos
cidadãos, possuem uma realidade local particular, e,
apercebendo-se dessa realidade, poderão agir com
maior eficácia, dando resposta aos problemas
identificados e prevenindo o aparecimento de outros.
Foi por isso que a
organização quis saber o que cada uma das 308
câmaras do País faz neste campo, tendo enviado a
cada uma um inquérito exaustivo, assente em três
premissas: apoios concedidos às famílias munícipes;
apoios concedidos enquanto empregadores aos seus
trabalhadores e a tarifa familiar da água.
Ponta Delgada com
descontos
Das 308 autarquias
contactadas, 181 comunicaram que políticas de apoio
às famílias aplicam nos seus concelhos. O que
significa que 127 não responderam (41,2%), ficando
arredadas da lista de boas práticas da APFN. Estão
nessa situação sete dos 19 municípios açorianos,
nomeadamente os dois da ilha Terceira. Angra do
Heroísmo e Praia da Vitória constam da lista de
autarquias que não enviaram qualquer resposta ao
inquérito enviado pela APFN em Setembro do ano
passado, juntamente com as suas congéneres de Santa
Maria (Vila do Porto), da Graciosas (Santa Cruz),
das Flores (Santa Cruz e Lajes) e do Corvo.
Contrariamente a
estas ilhas cinco ilhas, São Miguel (Lagoa,
Nordeste, Ponta Delgada, Povoação, Ribeira Grande e
Vila Franca do Campo), São Jorge (Calheta e Velas),
Pico (Lajes, Madalena e São Roque) e Faial (Horta)
remeteram à APFN as medidas que já implementaram
neste campo, colocando os Açores como o oitavo
distrito do país com a maior percentagem de
concelhos que têm medidas de apoio à família.
Provando que não só
os pequenos municípios apostam na promoção destas
medidas - numa tentativa de reterem os jovens e
assim evitarem o despovoamento - Ponta Delgada tem
implementado um modelo tarifário da água elaborado
mediante as regras da APFN, ou seja, destinado a
agregados familiares com mais de cinco elementos.
Sistema também aplicado por Vila Franca do Campo e
que é um pouco diferente do utilizado na Horta, onde
as famílias com 5 ou 6 elementos têm 20% de
desconto, percentagem que sobe para os 30% para os
agregados com mais de seis pessoas.
Já a Povoação atribui
uma redução de 9 metros cúbicos às famílias cujo
rendimento per capita não seja superior ao valor da
pensão social, enquanto a Ribeira Grande cobra uma
tarifa social aos agregados com 6 ou mais elementos
com consumo mensal igual ou superior a 16 metros
cúbicos e com rendimento per capita inferior ao
valor da pensão social.
Mas as câmaras
açorianas ajudam de outras formas. Calheta, Povoação
e Lajes do Pico ajudam a pagar os estudos dos jovens
universitários, enquanto estes dois últimos,
juntamente com a Madalena, também têm medidas de
apoio à habitação (desde a construção a obras de
conservação e melhoramento).
+ Informações:
Fonte: A União