Público última hora -
24 Mai
08
Tribunal condena jovens por praxe com excrementos
Andreia Sanches
Crimes de ofensa à integridade física e coacção
foram provados. Os jovens agiram por divertimento e
para castigar, disse o juiz
À saída da sala de audiências do tribunal, Ana
Santos controlou as lágrimas, engoliu em seco e
falou aos muitos jornalistas que esperavam as suas
declarações: "O meu contributo está dado." A jovem
de 27 anos reagiu assim à condenação de sete
ex-alunos da Escola Superior Agrária de Santarém (ESAS)
que, em 2002, a submeteram a uma praxe violenta.
Foi a primeira vez que autores de praxes académicas
foram julgados e condenados pelas suas práticas. "O
meu objectivo foi abrir caminho para que outras
pessoas apresentem queixa" se forem alvo de abusos,
explicou a jovem, que denunciou um caso que pôs o
país a debater a forma como os caloiros são
recebidos nas universidades pelos alunos mais
velhos.
Rui Coutinho, Lisbete Pereira, Sandra Silva, Armando
Simões, José Vaz, Tiago Vieira e Tiago Figueiredo
têm entre 27 e 32 anos e já terminaram os seus
cursos. Mas em Outubro de 2002 estudavam na ESAS. Os
primeiros seis integravam a comissão de praxes. E
ontem foram condenados pela prática em co-autoria do
crime de ofensa à integridade física qualificada.
Terão de pagar multas que oscilam entre os 640 e os
1600 euros, conforme os casos. O sétimo aluno, que
era veterano da escola, foi condenado pelo crime de
coacção. O juiz Duarte Silva, do Tribunal de
Santarém, impôs-lhe uma multa de 1400 euros.
Penas "demasiado pesadas"
O caso remonta a Outubro de 2002 quando Ana Santos,
então aluna do 1.º ano de Engenharia Alimentar,
atendeu um telefonema da mãe, desobedecendo assim à
ordem de não atender telefonemas durante as praxes.
Segundo Duarte Silva, o que se seguiu foi um castigo
físico, "uma retaliação".
A caloira foi obrigada a ajoelhar--se e alguns
arguidos ordenaram a outros caloiros que a barrassem
com excrementos de porco. Regressada à escola, Tiago
Figueiredo, o sétimo arguido, pediu a dois novos
alunos que a agarrassem pelas pernas e lhe
colocassem a cabeça num bacio com excrementos.
O juiz considerou que Ana Santos foi sujeita a actos
que "ultrapassaram os limites impostos pela noção de
praxe" e que "vão para além do mínimo ético
socialmente tolerável". Mais ainda quando os autores
eram membros de uma "comunidade académica", onde "se
exige uma postura ética ao nível do grau académico
que se pretende alcançar". Sustentou ainda que os
veteranos da ESAS agiram por "mero divertimento". E
tiveram como propósito "ofender o corpo e a saúde"
da aluna que, recordou, acabou por ter de mudar de
escola.
Lúcia Mata, advogada dos sete jovens, fez saber que
vai analisar a sentença e que pondera recorrer. Não
contava com a condenação e acha as penas "demasiado
pesadas".
"Desmistificar as fezes"
Os ex-alunos sempre disseram que agiram de acordo
com a "tradição" da escola, como, aliás,
testemunharam várias pessoas no decorrer do
processo. Um ex-professor declarou mesmo, durante o
julgamento, que "é preciso desmistificar as fezes".
E Henrique Soares Cruz, que à data das praxes a que
Ana Santos foi sujeita era director da escola,
também disse em tribunal que era "normal a praxe com
bosta".
Já Manuela Miranda, advogada de Ana Santos, não
escondia a satisfação. Apesar dos crimes em causa
terem uma moldura penal que pode chegar à pena de
prisão, considera que as multas cumprem o objectivo
de dar um sinal à comunidade: "Situações de
excessos, infelizmente, continuam a existir" nas
escolas.
A sentença surge no dia em que foi tornado público
que a Comissão Parlamentar de Educação aprovou por
unanimidade um conjunto de recomendações no âmbito
das praxes. Criar uma linha telefónica nacional para
atender os alunos, criar equipas de apoio aos
estudantes, com acompanhamento psicológico e
jurídico, e fazer um estudo nacional sobre as praxes
são algumas delas. Os deputados defendem a
necessidade das escolas rejeitarem "culturas de
obediência e de discriminação, que originam muitos
dos abusos que acontecem no âmbito da praxe". Com
B.W.