Público -
17 Mai
08
Futebol, futebol, futebol, fumei, pequei, vou
deixar de fumar, a Esmeralda entre o pai afectivo e
o pai biológico, futebol, directo do acidente na A1
que provocou três feridos, os pais da pequena Maddie,
futebol, tenho um cancro-tive um cancro-vou ter um
cancro, futebol, futebol, futebol
José Pacheco Pereira
A cultura da irrelevância está a crescer
exponencialmente. Este título podia continuar por
todas as páginas do PÚBLICO. Se o PÚBLICO fosse
feito como um "noticiário" televisivo, o que
felizmente não é, todas as suas páginas seriam
variantes disto, com mais de mil futebóis e mais
crimes, doenças e acidentes. Na página 15, haveria
uma pequena coluna com os números trágicos da nossa
economia; na página 24, uma faixa minúscula, como a
publicidade mais barata, num fundo de página, diria
que morreram na China 50.000 pessoas num terramoto;
na página 40, perdida numa notícia de página inteira
de um treino do Vitória de Guimarães, completa com
fotos e uma entrevista exclusiva com o treinador
sobre como a equipa está "entrosada", e se não
houver "as pressões vindas do sistema", ganhará um
jogo qualquer com "tranquilidade" (esta parece-me
que é de outro, mas não tem importância), uma
declaração do Presidente da República sobre o Kosovo,
onde temos soldados nossos.
Em todas as páginas do jornal haveria uma mensagem
subliminar: pedimos desculpa ao leitor por ter
perdido vinte e cinco linhas do nosso precioso
espaço, para falar de umas minudências que não dão
audiências, rima e é verdade, como a economia, o
preço dos passes sociais, as calamidades nos países
exóticos, as malfeitorias do Governo, quando não são
engraçadas ou não parecem vindas do sítio dos
Fumadores Anónimos. O sítio do noticiário político
são os programas de humor, o sítio de "sociedade"
são os programas da manhã e os do jet set, o sítio
da economia é o Preço Certo. Voltemos pois ao
directo da conferência de imprensa do director de
futebol do clube, que nos vai anunciar o "plantel"
para o jogo de sábado.
Eu sei que já escrevi sobre isto, a mais quixotesca
das minhas actividades, ainda pior do que a do PSD,
mas isto é mais grave do que se pensa. É um sinal de
descontrolo cívico, de atraso político e social, de
retrocesso da nossa democracia e da nossa vida
pública. Não é só na economia que estamos a andar
par atrás, é na cabeça. A cultura da irrelevância
está a crescer exponencialmente e todos já esperam
que o mesmo aconteça nos próximos meses, em que mais
uma vez o país vai parar porque há um Campeonato.
Na última semana, que é igual às últimas semanas,
aos últimos meses, aos últimos anos, todos os
telejornais em directo foram interrompidos, eu diria
mais, foram enchidos, com sucessivas e extensas
declarações em directo, sobre as decisões do
Conselho Disciplinar da Liga com sanções sobre
clubes e dirigentes desportivos, pelo seleccionador
nacional anunciando o "plantel", pelo novel director
de futebol do Benfica anunciando-se e anunciando
umas medidas para o seu clube. A isto acrescenta-se
o número de vezes em que quer o "serviço público",
quer as privadas dão jogos em horário nobre,
atirando as notícias para algures, como se em
particular o "serviço público" não tivesse aí
obrigações. A RTP é a televisão que mais falta a
essas mesmas obrigações, que justificam a
superioridade moral do "público" e que, pelos
vistos, só serve para receber os muitos milhões que
os contribuintes pagam. Mas não é só as vezes em que
directos do futebol são o telejornal, é que durante
três, quatro dias não nos conseguimos ver livres
daquilo. Até aparecer outro directo mais saboroso,
temos que assistir a "noticiários" que repetem ad
nauseam as mesmas imagens, as mesmas declarações,
seguidas por milhões de palavras "escalpelizando" os
"factos", em tudo o que é programa de actualidade
pela noite fora. O circo está montado na nossa
cabeça e nele fazemos o papel do urso amestrado ou
dos macaquinhos. Nem sequer o do palhaço pobre.
O mundo agressivo e brutal do futebol, com a sua
pedagogia de grosseria e violência, ordinário e
vulgar, movimentando poderosos interesses políticos,
nacionais, autárquicos e regionais, servindo uma
economia paralela, que para nosso mal ainda é a
única que funciona em muitos sítios, imerso em
corrupção, não aflige nem preocupa ninguém. A
começar pelos nossos deputados, que dão a caução
institucional da Assembleia da República a um
dirigente desportivo acabado de sancionar por
"corrupção tentada" e que saía de uma acareação num
tribunal. Políticos e dirigentes desportivos
ajudam-se mutuamente para impulsionar carreiras
políticas populistas que o mundo do futebol protege
e apoia, e parecem a única coisa que verdadeiramente
mexe em Portugal, junto com os negócios da "alta".
Ainda um punhado de inocentes pensava que isso era
uma pecha do salazarismo, quando meia dúzia de
palavras e imagens de cinco minutos, no fim dos
telejornais, passavam por ser um excesso e onde um
filme como O Leão da Estrela se limita a descarregar
sobre o tampo de uma mesa aquilo que hoje obriga a
operações paramilitares de contenção de turbas
violentas. Não, não andamos para a frente, andamos
para trás, para o país chamado Futebolândia, para a
futebolização plena da nossa vida pública.
Mas não é só o futebol, é tudo o resto. É o mundo
das telenovelas, com o seu sangue, suor e lágrimas,
transformado em "casos", o caso Maddie, uma coisa
abstracta e virtual, sem corpo real, já sem a
violência do crime, já transformado numa soap opera
de plástico, o caso Esmeralda, uma competição
absurda à volta de uma menina imaterial, tão
abstracta e morta na virtualidade como a "pequena
Maddie", onde todos os dias uma inovação aparecida
depois do caso Casa Pia, os "pedopsiquiatras",
divulga relatórios que deviam ser confidenciais em
tempo real, para movimentar as celebridades que vão
beijar o sargento e demonizar o pobre pai que só é
"biológico", com a justiça a claudicar perante a
pressão dos tablóides em que se transformou muito
daquilo que conhecíamos como "comunicação social".
E depois o estendal dos acidentes e doenças. Os
acidentes são hoje a única coisa que mobiliza
directores de informação, pressionados pelo controlo
de custos, a atirar a correr para Freixo de Espada à
Cinta o "carro de exteriores" à compita com outros
"carros de exteriores", para mostrarem camião virado
ou, melhor ainda, um autocarro, ou, se andarem
depressa, um ferido a ser desencarcerado, ou um
morto na berma. E então se houver crianças feridas
ou mortas, melhor ainda para as audiências.
Depois há um stock de "notícias" para os intervalos
do futebol, as reportagens sobre doenças, de
preferência raras, de preferência com "casos
humanos" apensos, de preferência com imagens fortes
como a de um buraco feito por uma broca na cabeça,
tudo interessantes matérias para prender o olho dos
ouvintes no meio do jantar. Médicos, assistentes
sociais, pedopsiquiatras ou pedopsicólogos,
ex-polícias da Judiciária, são profissões com
garantia de sucesso televisivo, como também
astróloga, hortelão urbano, bruxa e ervanário
popular explicando como a sua erva é mais eficaz do
que o pau de Cabinda.
A cultura da irrelevância está impante como nunca,
espectáculo e pathos brilham no sítio que
anteriormente ainda era frequentado, de vez em
quando, pela razão, pelo bom senso, pela virtude.
Esta é, obviamente, a melhor comunicação social, a
melhor televisão para os governos, e o actual cuida
bem que não lhe falte dinheiro para as suas
quinhentas horas de futebol. Compreende-se: a bola
não pensa, é para ser chutada. Historiador