Público última hora - 08 Mai
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Estado vai deixar de construir bairros sociais
Luísa Pinto
Há 40 mil famílias com necessidade imediata de casa.
Maior envolvimento do Governo na dinamização do
arrendamento
É o fim dos bairros sociais. E da solução dos
problemas habitacionais através da entrega de uma
casa. Em vez de mandar construir mais fogos para as
40 mil famílias que têm necessidade imediata de
habitação, o Estado deverá dinamizar o mercado de
arrendamento e ser ele próprio a adquirir ou
arrendar imóveis, para constituir uma bolsa de fogos
com que possa resolver algumas das carências
habitacionais detectadas.
Esta é uma das propostas incluídas no Plano
Estratégico da Habitação (PEH), um documento que
prevê uma alteração profunda nas políticas públicas,
em que o Estado é retirado do seu papel de
interventor directo e provisor das populações, para
o colocar em funções de maior regulação e
fiscalização. O papel principal vai ser atribuído às
câmaras e a materialização da estratégia deverá dar
lugar a muitas parcerias público-privadas.
O documento, elaborado por uma equipa técnica
multidisciplinar [integrada, entro outros, por Nuno
Portas, Augusto Mateus e Isabel Guerra] vai entrar
em debate público, e começa hoje a ser discutido com
as câmaras municipais. Quando estabilizado, as
propostas do primeiro Plano Estratégico de Habitação
vão definir as prioridades das políticas públicas de
habitação até 2013.
A aposta nos mercados do arrendamento e da
reabilitação aparecem como fundamentais nesta
estratégia - mas essa não é a novidade, já que há
varios anos, e tambem desde que o actual Governo
tomou posse, que se defende uma revolução para estes
dois mercados, ainda muito estagnados.
As novidades materializam-se, antes, nas propostas
concretas para o realizar (ver textos nestas
páginas) e que passam pela aquisição pública de
imóveis para serem colocados no mercado de
arrendamento, e a aplicação de critérios e de
programas de apoio semelhantes àqueles que estão já
em vigor - como o Porta 65 Jovem (que substituiu o
antigo Incentivo ao Arrendamento Jovem) e que tem
sido, aliás, alvo de muita contestação. É o caso da
criação de uma bolsa de habitação e mobilidade.
Um outro vector que assume muita preponderância na
proposta do plano estratégico é o da habitação a
custos controlados (HCC), a modalidade a que as
autarquias normalmente recorrem para resolver as
necessidades habitacionais dos seus concelhos, e que
poderão receber novas roupagens. O número de
famílias inscritas nas câmaras municipais para
pedidos de alojamento em habitação social está muito
próximo do número de fogos que foram construídos,
para esses fins, durante quase duas décadas: entre
1986 e 2005 foram construídos mais de 61 mil fogos
para habitação social; o número de famílias
actualmente inscritas nas câmaras municipais chega
às 50 mil.
São os municípios das áreas metropolitanas de Lisboa
e Porto que registam listas mais extensas, mas as
carências habitacionais estão muito longe de estar
circunscritas às áreas metropolitanas. A expectativa
da tutela é que, a partir de 2009, as câmaras
possam, isoladas ou em estruturas intermunicipais,
apresentar a concurso os seus Programas Locais de
Habitação, a principal novidade deste plano
estratégico e que obriga as autarquias a
apresentarem estratégias de médio prazo em vez de
pedidos de apoios financeiros para recuperar casas e
construir bairros.
Estas propostas trazem alterações muito relevantes
em termos de alteração do modelo de financiamento e
do modelo de governance da politica social de
habitação, através da descentralização e da
contratualização com terceiros", sintetizou João
Ferrão, mostrando-se optimista com a adesão dos
municípios: "Já há autarquias alinhadas com estas
preocupações. Outras demorarão mais tempo. Serão
reacções diferentes, também porque os municípios tem
problemas diferentes".