Público - 04 Mai
08
Portuguesas são as que mais sentem tensões na
relação entre trabalho e família
As mulheres portuguesas são, numa análise
comparativa com sete países europeus, aquelas que
apresentam níveis de stress mais elevado. Motivo: o
grande número de horas que dedicam à profissão e à
família. E o stress familiar é tanto maior quanto
mais baixo é o nível de escolaridade e maior o
número de crianças em casa.
A conclusão está contida no livro Família e Género
em Portugal e na Europa, do Instituto de Ciências
Sociais. A explicação adiantada ao PÚBLICO por Karin
Wall é simples: uma mulher portuguesa que exerce uma
profissão não qualificada gasta 22 horas por semana
em tarefas como cuidar da roupa, cozinhar e limpar a
casa. Entre as profissionais qualificadas, as
tarefas domésticas já só ocupam entre 12 e 15 horas
por semana. Mas continuam, ainda assim, acima dos
níveis apresentados pela Suécia, por exemplo, país
com taxas de actividade feminina igualmente
elevadas.
Leitura: "Nos países do Sul da Europa, há mais brio
em redor da limpeza, enquanto para uma sueca essas
tarefas são menos importantes, até porque é um
trabalho não pago", sublinha Sofia Aboim, para se
referir depois à ambivalência portuguesa nesta
matéria: "As mulheres acham que podem e devem
trabalhar fora de casa mas depois subsiste um modelo
de feminilidade muito ligado ao doméstico".
E, apesar de, como refere Karin Wall, haver cada vez
mais portugueses a partilhar as tarefas domésticas
em pé de igualdade com as mulheres, estas vão
continuar sobrecarregadas. "As mulheres adaptaram-se
mais rapidamente ao mercado de trabalho do que os
homens à nova vida privada", sublinha Wall.
Num país onde 83,7 por cento dos cidadãos dizem que
não desejam deixar de trabalhar para poder prestar
assistência aos filhos, segundo dados do INE, a
questão que se coloca é a da institucionalização das
crianças. Neste campo, Wall aponta como bom exemplo
a aposta na expansão das creches e infantários.
"Em meados dos anos 80, apenas 29 por cento das
crianças entre os três e os seis anos frequentavam o
pré-escolar. Neste momento, esse número é de 78 por
cento", lembra, sublinhando que, no caso das
crianças até aos três anos, "um dos objectivos do
Governo é aumentar a taxa de cobertura da rede
pública até aos 33 por cento".
Por este dias, 23 por cento das crianças portuguesas
até aos três anos estão em creches. Em Espanha, a
percentagem é de 17 por cento. Quanto aos efeitos
desta institucionalização precoce, não há certezas.
"É um debate que está aceso em toda a Europa. No
Norte, a ideologia é que a criança fique os
primeiros meses em casa com a família mas, como
futuro cidadão, é importante que seja educado pelo
Estado, que se socialize através das instituições.
Mas em países mais conservadores, como a Áustria e a
Alemanha, há uma recusa da institucionalização e
julgo que isso tem a ver com os nazismos: todos os
regimes ditatoriais impunham a institucionalização
das crianças e hoje, apesar de não se dizer isso, há
uma reacção forte contra esta institucionalização."
83,7%
Segundo o INE, 83,7% dos portugueses não desejam
deixar de trabalhar para poder prestar assistência
aos filhos