Público - 04 Mai
08
"Seria sensato tomar medidas", defendem
especialistas
Andreia Sanches e Alexandra Campos
A crise alimentar que se vive por todo o mundo terá
impacto gradual em Portugal, sobretudo entre a
população mais pobre. Aliás, "quem tem rendimentos
muito baixos já está a ressentir-se", diz Rogério
Roque Amaro, professor de Economia no Instituto
Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, em
Lisboa. "A tendência é para as pessoas substituírem
alguns alimentos por pão, por exemplo, porque,
apesar de ter aumentado, é ainda assim mais barato
do que outros", explica.
A constatação de Roque Amaro baseia-se não só no que
diz a teoria sociológica do comportamento dos
consumidores mais pobres, como no que o investigador
observa no seu trabalho junto de bairros sociais do
país. "As pessoas estão a queixar-se." E a situação
pode agravar-se: "Os aumentos tendem a ser em
cascata, primeiro os cereais, depois as farinhas, a
carne..."
O problema tem escala mundial. Mas Portugal, com
"taxas elevadas de pobreza relativa e absoluta" em
comparação com a média europeia, não sairá imune,
pelo que "seria sensato que, desde já, o país
tomasse medidas". Que medidas? "Em primeiro lugar,
Portugal devia contribuir para levar o debate da
reforma da política agrícola a nível europeu",
defende. Uma reforma essencial quando vários "erros"
foram cometidos. Dá como exemplo o facto de, durante
anos, o país ter recebido ordens para reduzir a
produção de cereais.
Pode ainda ser necessário rever "as compensações
atribuídas às instituições [de solidariedade] que
apoiam estas pessoas" mais vulneráveis à crise. É
que também elas estão a suportar o aumento dos
preços.
A coordenadora do Plano Nacional de Acção para a
Inclusão (PNAI), Fernanda Rodrigues, defende também
o reforço da acção das organizações não
governamentais (ONG), se o acréscimo da procura de
ajuda alimentar que tem sido reportado se confirmar
e persistir no tempo. "A privação das prestações
básicas é intolerável", considera, frisando que "uma
evidência social desta natureza não pode deixar de
ter consequências".
Consequências que podem passar pelo reforço de
vários programas já existentes, como o programa de
apoio alimentar comunitário que é canalizado para as
ONG. Mas Fernanda Rodrigues vai mais longe, ao
reconhecer que poderá fazer sentido avançar com
prestações pecuniárias, para além do apoio
alimentar.
Admitindo que é necessário reequacionar o dignóstico
feito em 2005, quando foi definido o actual PNAI,
garante que o próximo programa (2009-2011) já vai
incorporar estas "indicações de ordem mais
subjectiva" e que, até ao final do ano, será feita
uma ronda de auscultações e recolhas de indicações e
tendências para juntar aos dados de natureza
quantitativa e estatística que parecem apontar em
sentido contrário. No final do ano passado,
exemplifica, o rendimento social de inserção
abrangia cerca de 300 mil pessoas, quando em anos
anteriores já chegou a beneficiar 350 mil. Mas os
últimos dados do RSI (Fevereiro) apontam para perto
de 316 mil beneficiários, quase mais 10 por cento do
que no mesmo mês do ano passado.