Público - 03 Mai
08
A TV e os media nos tempos livres dos jovens
Eduardo Cintra Torres
Os meus alunos de Análise e Crítica de Televisão da
Universidade Católica aplicaram um inquérito junto
de um milhar de jovens em finais de Março. Por
coincidência, apresentei os primeiros resultados nas
aulas dois dias antes de, a 25 de Abril, o
Presidente da República ter divulgado um estudo
(realizado, também por coincidência, pelo Centro de
Estudos da mesma universidade) sobre os jovens e a
política, assim introduzindo na agenda do debate
público o tema do nível de conhecimento e
envolvimento da juventude na política (esse estudo
está em
http://www.presidencia.pt/archive/doc/Os_jovens_e_a_politica.pdf).
O trabalho que realizei com os meus alunos é
modesto; não podíamos recorrer a uma amostra
representativa, fizemo-lo junto de uma amostra de
conveniência. Não é, por isso, estatisticamente
representativo do universo, mas, com os seus 1086
inquéritos a jovens dos 15 aos 34 anos, é expressivo
dos hábitos e opiniões da juventude portuguesa sobre
os media, em especial a TV. Neste artigo, apresento
os resultados de algumas das 76 questões do
inquérito, que permitem colocar a TV nos contextos
em que deve estar: comparada com os outros media e
comparada com outras ocupações dos tempos livres.
Estes resultados ajudam à reflexão actual sobre os
jovens, os media e, por extensão, a política.
Foi pedido aos inquiridos que indicassem quais os
media mais importantes para si, em 1.º, 2.º e 3.º
lugares (Quadro 1). A televisão é o media mais
importante para os jovens, sendo mencionado por
76,8%, mas a Internet está-lhe no encalço, com
72,7%. O telemóvel foi referido por 39%, à frente
dos jornais (30,7%) e rádio (27,0%). Os livros são
um dos media mais importantes para 11,6% dos jovens,
6,6 vezes menos do que a TV, mas, mesmo assim, acima
de revistas, iPod, cinema, DVD, consola e CD. Em
conjunto, os media exclusivamente audiovisuais (TV,
cinema, DVD, consola) duplicam em importância os
media exclusivamente de leitura (livros, jornais,
revistas).
Os resultados não permitem análises catastrofistas
quanto à leitura, mas pode inquietar o lugar do
livro na vida dos jovens, tendo em conta que a
"leitura profunda", e não a de jornais, revistas ou
blogues, é um traço distintivo do enraizamento da
cultura e do processo educativo.
Colocámos uma pergunta visando relativizar o uso dos
media na vida quotidiana, porque muitos inquéritos
se limitam aos media, o que faz esquecer que há mais
vida para além deles. As respostas permitem concluir
que os jovens são ainda jovens como nos "good ol"
times": quando lhes perguntámos como se entretêm nos
tempos livres, sair com amigos surge em destaque
(67,3%), bastante acima das opções seguintes, quase
empatadas: navegar na Net (44,6%) e ver TV (41,8%).
O facto de a Internet ultrapassar a TV parece
indicar que esta vai sendo relegada para "pano de
fundo" do quotidiano, como aconteceu à rádio nas
últimas décadas. O Quadro 2 revela uma juventude
variada nos seus interesses, havendo um quarto que
escolheu passear (27,6%), ouvir música (26,1%),
praticar desporto (25,8%) e ir ao cinema (23,7%).
No conjunto, os resultados mostram uma juventude que
gosta - e precisa - de socializar com os seus pares,
mas também com opções firmes no território
individual, como navegar na Net, ver filmes no PC ou
ler. Com 17,7%, a leitura surge em 8.º lugar na
ocupação dos tempos livres, o que parece razoável,
tendo em conta tratar-se de jovens, um grupo com
necessidades individuais e sociais activas e fora de
casa e tendo em conta as muitas outras solicitações
contemporâneas, em especial as electrónicas.
Para compreender melhor a importância da TV na vida
dos jovens, perguntámos-lhes quais os géneros
televisivos mais importantes para si actualmente, em
1.º, 2.º e 3.º lugares (Quadro 3). Não surpreende
que séries e filmes sejam os géneros preferidos
(55,2% e 54,1%), comprovando a necessidade que os
jovens têm da ficção para se divertirem e para
estruturarem o seu conhecimento do mundo. Mas
surpreende positivamente que, quase empatado com
esses géneros, apareçam os noticiários (53,2%),
muito acima do desporto, telenovelas, música e
humor. Tal facto indica que, como se tem dito, os
jovens adquirem boa parte da sua informação
jornalística pela TV, mas também que colocam as
notícias no topo das suas prioridades televisivas.
Os noticiários foram, aliás, o género que os
inquiridos mais escolheram em 1.º lugar.
Outras questões do inquérito permitem verificar que
os jovens questionam a qualidade geral dos
noticiários. Entre outras perguntas, quisemos saber
se desconfiam da forma como as notícias são dadas:
mais de metade desconfia (58,7%). Quisemos saber se
acham os noticiários sensacionalistas: sete em dez
acham (71,7%). Perguntámos se a maioria das notícias
lhes interessa: cerca de metade disse que não lhes
vê interesse (51,6%), o que pode significar que as
vêem por pressão social ou por acharem necessário.
Este estar "de pé atrás" em relação aos noticiários
não leva, porém, a maioria a preferir as notícias da
rádio ou da imprensa (66% não as preferem), nem
mesmo leva os jovens a usar o zapping na busca de
informação alternativa: quando interrogados sobre se
é preciso fazer zapping para se ficar bem informado,
61% concordou pouco ou nada com essa afirmação. Pode
concluir-se que os jovens estão bastante ligados à
televisão, usando-a para se informarem sem se lhe
submeterem. A suposta influência da TV deve ser
ainda mais relativizada quando sabemos, pela
audimetria da Markdata, que os jovens dos 15-24 e
dos 25-34 anos são os grupos que menos vêem TV. Os
resultados são consistentes desde 2001, apenas com a
novidade de os mais pequenos (4-14 anos) terem
começado em 2006 a ver tão pouca TV como os dois
grupos etários seguintes.
Descrição da Amostra
Alunos da Universidade Católica aplicaram 1086
inquéritos na segunda quinzena de Março em locais da
sua conveniência (casa, escola, cafés, recintos
desportivos, transportes públicos, etc.),
presencialmente mas também pela Internet, a
indivíduos dos 15 aos 34 anos. Cerca de 70% dos
questionários foram colocados a residentes em
Lisboa, Cascais, Oeiras, Loures, Odivelas, Sintra,
Almada, Montijo, Barreiro, e os restantes 30% a
residentes em dezenas de concelhos de 13 distritos
do Continente. Fiz a análise de dados com o software
estatístico SP