Correio da Manhã - 15 Mai 07
Educação: Relatório da Inspecção-Geral
País perdeu 2463 escolas
Edgar Nascimento
Nos dois últimos anos o número de escolas em
Portugal baixou de 14 973 para 12 510, passando a
haver menos 2463. O encerramento de escolas do 1.º
Ciclo com poucos alunos (6355 em 2004, 4509 no
início deste ano lectivo) é uma das razões apontadas
pela Inspecção-Geral da Educação (IGE) para a
quebra. Ontem, pela primeira vez, um relatório da
IGE foi tornado público pela tutela.
"As acções da IGE são discretas mas não secretas”,
disse José Maria Azevedo, inspector-geral. Quanto ao
encerramento de escolas, a ministra da Educação
Maria de Lurdes Rodrigues voltou a frisar que é uma
medida “positiva” e permitirá melhorar os
resultados.
O relatório ‘Organização do Ano Lectivo 2006-07’
analisa e compara vários indicadores de uma amostra
de 312 agrupamentos de escolas públicas,
representativa de um quarto do universo de escolas,
alunos e professores. Indica vários constrangimentos
encontrados pelos inspectores nas visitas às
escolas: 22 por cento dos jardins-de-infância ainda
não asseguram o funcionamento até às 17h30 e a rede
de cobertura da Educação Pré-Escolar é insuficiente.
Há um “número significativo” de crianças com três
anos que não são admitidas nos jardins-de-infância,
nomeadamente em Lisboa e Algarve.
Na análise do 1.º Ciclo a IGE aponta a existência de
muitas escolas (18 por cento) em regime de horário
duplo “devido à escassez de instalações”, o que tem
consequências na capacidade de oferta de Actividades
de Enriquecimento Curricular (AEC). No entanto, o
relatório diz que 90 por cento das escolas primárias
oferecem AEC aos seus alunos. Algumas escolas ainda
têm uma oferta insuficiente de serviço de almoço,
sobretudo em Lisboa, mas no global a percentagem de
estabelecimentos que oferecem serviço de refeições
subiu de 47 por cento em 2005 para 79 por cento em
2006.
Em relação ao 2.º Ciclo, continua a observar-se
“confusão entre alunos com necessidades educativas
especiais e alunos com dificuldades de
aprendizagem”. No 3.º Ciclo, o principal problema
reside na “distribuição desequilibrada das
actividades lectivas pelos dias da semana”, havendo
dias com oito ou mais horas e outros com cinco ou
menos. A deficiente organização da rede de
transportes escolares estará na génese do
constrangimento. A IGE aponta ainda o dedo aos
professores: nos 2.º e 3.º Ciclos e Secundário
regista-se uma “utilização menos eficiente das horas
da componente não lectiva dos docentes no
desenvolvimento de projectos pedagógicos destinados
a promover o sucesso educativo”.
Para a ministra Maria de Lurdes Rodrigues, as
mudanças, especialmente as verificadas no 1.º Ciclo,
“são impressionantes e alimentam o nosso optimismo.
O horário alargado, as actividades, as melhores
condições de trabalho e as refeições quentes vão
permitir melhorar os resultados num espaço de tempo
mais curto do que alguma vez pudemos imaginar”.
906 MIL EUROS INJUSTIFICADOS
Entre as várias situações de incumprimento
detectadas pelos inspectores da Educação, estão
horas evitáveis, horas extraordinárias irregulares e
horários indevidamente ocupados por destacamento por
condições específicas ou contratação de professores.
Segundo a estimativa da IGE, o custo anual das horas
evitáveis ronda os 192 820 euros, enquanto o
pagamento de horas extraordinárias indevidas custa
44 353 euros. O custo dos destacamentos irregulares
custa 338 341 euros e os horários indevidamente
ocupados por contratação custa 330 939 euros. Outro
incumprimento diz respeito a turmas com aulas de
Educação Física, que não respeitavam o intervalo de
uma hora após o almoço, sendo detectadas 103 turmas
nesta situação, de um total de 7317 turmas. Foram
também registadas 306 turmas que não respeitavam o
intervalo para o almoço.
SAIBA MAIS
202 inspectores ao serviço da Inspecção-Geral da
Educação, num total de 310 funcionários.
1771 foi o primeiro ano em que se realizaram
inspecções escolares: a Real Mesa Censória, a pedido
do Marquês de Pombal, ministro de D. José I,
inspeccionou as escolas menores, com a finalidade de
iniciar a construção do sistema educativo nacional.
O que faz a IGE: Acompanhamento, controlo,
auditoria, avaliação, provedoria e acção disciplinar
– estas são as áreas de actuação da Inspecção-Geral
da Educação, que também organiza e participa em
actividades nacionais e internacionais.
Rede Pública: A Lei-quadro da Educação Pré-escolar,
de 1997, estipula que “incumbe ao Estado criar uma
rede pública de Educação Pré-Escolar, generalizando
a oferta dos respectivos serviços”.
EDUCAÇÃO À LUPA
169 291 professores e educadores de infância no
início do ano lectivo, menos 8239 do que em 2005.
1 669 470 alunos matriculados nas escolas públicas
no início do ano lectivo, mais 21 192 que em 2005.
312 unidades de gestão analisadas, que representam
cerca de um quarto do universo de escolas, alunos e
professores.
596 507 alunos matriculados nas escolas da amostra,
dos quais 104 933 do 1.º Ciclo e 72 268 do 3.º
Ciclo.
33 603 professores e educadores de infância em
funções nas unidades de gestão seleccionadas.
60 por cento das crianças com três anos não
admitidas nos jardins-de-infância no Algarve.
502 079 horas de serviço docente para distribuir;
373 143 efectivamente lectivas. Elaborados 22 809
horários.