Sociedade sem valores, um povo que adormece
D. António Marcelino
A mãe mata o filho que traz no seu seio e o Estado
ajuda? É uma mulher livre.
A mãe entrega o filho que não pode criar a alguém
que o acolhe com amor e desvelo? É uma mulher
desnaturada. Pode-se matar, mas não dar…
Põem-se todos os dias, em grande plano, frente aos
olhos das crianças, todas as porcarias e até a venda
de bebés, como aconteceu, recentemente, numa
telenovela portuguesa? Estamos numa sociedade livre.
Descobre-se na Internet uma rede propagandeada de
venda de crianças, a nível europeu e que também
actua em Portugal? Logo os grandes do direito vêm a
terreiro e ameaçam com os castigos da justiça, e as
vestes dos bem pensantes rasgam-se a proclamar que
“Isto não é possível!”
Há autarcas a criar programas locais para favorecer
a natalidade e fixar os casais jovens nas suas
terras? Aplaudem-se as iniciativas. Cada dia nos
centros de planeamento familiar, até nas sedes de
concelho onde se luta por mais gente, se ensina a
não procriar e se calam os métodos que estimulam e
ajudam a crescer? E a isto chama-se favorecer a boa
informação que as boas mães precisam e as jovens
adolescentes não dispensam, porque o sexo deve ser
seguro.
Encontram-se crianças desnutridas, que vão cada
manhã para a escola sem terem comido nada e só fazem
alguma coisa por elas os que lá dentro, atentos às
situações e a sofrer por isso, procuram modos de
ajudar? São as famílias que não se sabem governar
nem educar,
Continuam por aí crianças, como todos sabemos, sem
alguém que as acolha quando a escola fecha?
Oficialmente diz-se que isto não é verdade.
Entretanto, ignoram-se e destroem-se instituições
que foram criadas e equipadas para ir ao encontro
das famílias, que não podem estar para as acolher os
filhos às horas oficiais…
Vê-se, a cada passo, a corrosão interior progressiva
de filhos pequenos por via do divórcio irreflectido
de muitos pais? Estamos num país evoluído evoluído.
Assim, os senhores legisladores e governantes,
muitos deles também divorciados, continuam,
impunemente, a fazer e a regulamentar as leis, não
favorecendo, antes pelo contrário, nem a justiça,
nem a dignidade da família, nem a consistência do
casal e do agregado familiar, hipotecando, deste
modo, o presente e o futuro do país.
Aparece agora para os países da UE, a partir de uma
Directiva do Parlamento, uma proposta traduzida
equacionada pelo binómio “Europa e Mercado”. Toda a
concepção da vida em sociedade está vazada em
resultados materiais. As instituições intermédias,
que já contam cada vez menos, deixarão de contar,
dando-se, assim, passos largos para a desumanização
das pessoas e das relações sociais. A antropologia,
com bases filosóficas e exigências de ética, é coisa
de somenos importância, e as pessoas concretas são
empecilhos para quem tem nas mãos os cordelinhos do
comando, que não são, nem nunca foram, as pessoas
que conhecemos e dão o rosto e o nome para serem
meros executores…
Por cá, tudo isto vai entrando, com a normalidade
silenciosa que não acorda nem espevita, porque não
faltam ideólogos que sabem adormecer o povo e não
têm outro sentido de vida que o materialismo do
“mercado” e do “prestígio”.
Até quando? Até que o povo, famílias, instituições,
grupos organizados e com princípios, o queiram. Não
é o povo quem mais ordena? Sim, se estiver acordado
e afirmar a sua dignidade.