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Público - 26 Mai 06
Petição de cidadãos não evitou aprovação da lei
da RMA
Leonete Botelho
A esquerda deu por
finalizado o processo
legislativo no Parlamento
A entrega no Parlamento, ontem de
manhã, de uma petição de cidadãos com 77.046
assinaturas, visando a realização de um referendo
sobre a Procriação Medicamente Assistida (RMA) não
alcançou o seu mais próximo objectivo: evitar a
votação final global da respectiva lei. O diploma,
que faz o primeiro enquadramento jurídico da
fertilização in vitro em Portugal, acabou por ser
aprovado pelas bancadas do PS, PCP e BE, contando
ainda com oito votos favoráveis do PSD.
O desfecho não era totalmente previsível e marcou
toda a jornada parlamentar de ontem. Logo de manhã,
após a entrega da petição ao presidente da
Assembleia da República, uma das principais
dinamizadoras, a advogada e ex-deputada pelo PSD
Isilda Pegado, garantia aos jornalistas estar
convencida de que o processo legislativo seria
suspenso, em respeito à Lei do Referendo. "Se for
votada será cometida uma ilegalidade", afirmou,
reportando-se à Lei do Referendo (ver caixa).
Embora defendam a aprovação de uma lei, os
mandatários desta petição, como Bagão Félix,
consideram que o texto saído da comissão parlamentar
de Saúde "tem alguns pontos melindrosos do ponto de
vista ético e civilizacional", pelo que "deve ser
amadurecida na sociedade". É o caso, acrescenta
Isilda Pegado, da reprodução heteróloga [com recurso
a células sexuais de terceiros] com anonimato do
dador ou a investigação em embriões excedentários -
"seres humanos congelados", nas suas palavras.
"Se a lei está há 20 anos à espera, pode esperar
mais uns meses", defendia Bagão Félix.
Numa interpelação logo no início do plenário, o CDS
propôs que a votação final fosse adiada pelo menos
uma semana, alegando uma questão sobretudo formal.
"Queremos que a comissão de Assuntos Constitucionais
se pronuncie sobre se a petição suspende ou não o
processo legislativo, porque se trata de uma
situação nova sobre a qual não há jurisprudência",
defendeu Mota Soares.
Por seu lado, o líder da bancada do PSD, Marques
Guedes, quis saber se o presidente da Assembleia da
República, Jaime Gama, já tinha aceite a petição dos
cidadãos, pois em caso afirmativo tal suspenderia
automaticamente o processo e obrigava a adiar a
votação.
A esquerda reagiu. "Não são sobressaltos de última
hora que podem atropelar o processo legislativo",
afirmou Ricardo Rodrigues (PS), frisando que "o
Parlamento tem as sua própria agenda e as suas
próprias regras". E estas, juntaram António Filipe (PCP),
Luís Fazenda (BE) e Osvaldo Castro (PS), não obrigam
a suspender a votação pela simples entrega da
petição.
Guilherme Silva (PSD) preferiu a discussão política
à jurídica: "Ninguém compreenderá que não se
suspenda o processo legislativo, não se pode ter uma
atitude de indiferença perante uma iniciativa de
cidadãos." Nuno Melo e Mota Soares (CDS) insistiram:
"Foram 77 mil os cidadãos que recorreram à
Assembleia da República em tempo útil". "Se hoje se
fizer a votação, esvazia-se objectivamente a
iniciativa legislativa dos cidadãos [só pode haver
referendo mediante um processo legislativo em
curso]. É isso que o Parlamento quer?" Foi.
Gama explicou que a lei ainda não foi formalmente
admitida: primeiro é preciso um parecer da comissão
respectiva e a confirmação das identidades dos
signatários. PS, PCP, BE e PEV chumbaram o
requerimento do CDS e a lei foi aprovada. Por uma
larga maioria dos deputados.
A bancada do PSD não se fez rogada perante a
liberdade de voto da direcção: a orientação
maioritária foi contra o texto saído da comissão de
Saúde (apesar de algumas das propostas do seu
projecto terem sido acolhidas, como a proibição das
chamadas barrigas de aluguer), mas 21 deputados
abstiveram-se (Duarte Lima, Aguiar Branco, Miguel
Relvas, por exemplo) e oito votaram a favor, entre
eles Agostinho Branquinho, Pedro Duarte, Pedro Pinto
Emídio Guerreiro ou Sérgio Vieira.
A disciplina de voto impôs-se na bancada do PS, mas
não foi rígida: Matilde Sousa Franco, subscritora do
documento pró-referendo, invocou objecção de
consciência e votou contra, assim como as duas
independentes do Movimento Humanismo e Democracia,
Teresa Venda e Rosário Carneiro. No CDS, todos
votaram contra, mas António Pires de Lima sente
necessidade de apresentar declaração de voto para se
"explicar" perante as "centenas de casais" inférteis
que há anos esperam por uma lei. |