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Público - 25 Mai 06
Assim não
José Manuel Fernandes
Portugal parece ter uma atracção fatal pelo erro
e uma total incapacidade de seguir os bons exemplos
Portugal tem 49 mil empresas de
construção civil que empregam 600 mil trabalhadores,
sensivelmente 11 por cento da população activa
quando o saudável seria estar nos seis a oito por
cento. E, apesar dos discursos em contrário,
continua a acreditar que "mais cimento é mais
desenvolvimento", como ainda anteontem voltou a ser
claro quando o ministro das Obras Públicas anunciou
que serão construídos mais 263 quilómetros de
estradas por ano até 2015. De resto, bem precisamos
delas, pois na União Europeia só dois países têm
mais automóveis por habitante do que Portugal, a
Itália e o Luxemburgo. E fora da Europa só os
Estados Unidos nos ultrapassam. Somos pobres mas
temos "popó".
Portugal, em contrapartida, continua cego aos bons
exemplos testados noutros países para melhorar a
qualidade de vida dos cidadãos sem que estes se
endividem para comprar carros que ficam, depois,
parados nos engarrafamentos. Levar o carro para o
centro de Londres obriga a pagar uma pequena
fortuna, e mesmo estando os ingleses muito mais
abonados do que nós, essa taxa fez diminuir o
tráfego e permitiu um substancial aumento da
velocidade de circulação dos transportes públicos.
Com os mesmos autocarros passou-se assim a servir
mais passageiros - exactamente o contrário do que
sucede nas nossas cidades, onde se investe antes em
transportes públicos que todos os anos perdem
passageiros. Agora está-se a estudar no Reino Unido
fazer com que os automobilistas paguem pela
utilização das estradas cada vez que se deslocam,
ficando as receitas nas regiões que essas vias
servem. Cá pagamos antes pomposas Scut onde se
circula de borla em nome do "desenvolvimento local",
mesmo sabendo que boa parte dos que as utilizam
apenas desejam passar mais depressa por algumas das
regiões deprimidas do país.
Portugal vai entretanto ter de mandar ministros a
Bruxelas para conseguir mais quotas de emissão de
CO2, não porque tenha visto a sua indústria
exportadora crescer, mas sim porque importou mais
automóveis e construiu mais casas, batendo os
recordes no consumo de cimento per capita. Isso vai
custar mais dinheiro, vai deixar-nos mais longe do
cumprimento das metas do Protocolo de Quioto, mas é
apresentado como uma inevitabilidade para que o
Governo patrocine alguns investimentos industriais.
Pior: obriga o Governo a escolher que investimentos
apoia e que investimentos obriga a pagar as emissões
excedentárias, o que se traduzirá num nada saudável
e potencialmente catastrófico dirigismo económico.
Portugal, que tem os piores índices da União
Europeia no que diz respeito ao abandono escolar ou
à formação ao longo da vida, conseguiu também o
prodígio de gastar até ao momento apenas 31,7 por
cento das verbas comunitárias afectas ao Programa
Operacional da Sociedade do Conhecimento. Sem
surpresa, o seu responsável admite que a
reorientação das verbas para acções enquadradas no
famoso Plano Tecnológico complicou tudo pois os
"trâmites processuais são muito lentos". O que
permite concluir que estamos condenados a andar a
vapor à procura dos "chips" que evoluem à velocidade
da luz.
Portugal assim, de pernas para o ar, não ata nem
desata, e nenhum voluntarismo ou novos anúncios de
que a "retoma está aí" alterarão um atavismo que
impregna o país de alto a baixo e complica a vida a
este Governo como o fez aos anteriores. A inércia
acaba sempre por sair vitoriosa, e por agora a
inércia maior e mais glutona é a da máquina pública,
única explicação possível para o facto de em menos
de dez anos a diferença entre o salário médio
nacional e o salário dos funcionários públicos ter
passado de 20 para 50 por cento, e a favor destes.
Mais palavras para quê? |