eferendar
a reprodução artificial deverá entregar na próxima
semana uma petição com 75 mil assinaturas, podendo
com esta iniciativa suspender o processo
legislativo. Depois de um vazio legislativo com 20
anos (quando foram introduzidas as técnicas para
ajudar a combater a infertilidade dos casais), a
Assembleia da República está prestes a produzir uma
lei sobre esta matéria. Na próxima terça-feira a
comissão de Saúde deverá votar o diploma sobre
Procriação Medicamente Assistida (PMA), que subirá
nas semanas seguintes a plenário para a votação
global.
Isilda Pegado, presidente da
Federação Portuguesa pela Vida e uma das promotoras
da petição — onde se exige um debate alargado à
sociedade sobre questões tão sensíveis como o
destino a dar aos embriões excedentários, a chamada
barriga de aluguer e a identificação dos dadores de
material genético —, invoca um rol de artigos legais
que na sua opinião permitem o congelamento do
processo dentro da Assembleia da República até à
discussão da iniciativa popular. As certezas da
ex-deputada do PSD fundamentam-se na leitura que faz
dos artigos 115º e 167º, da Constituição, e 4º, 16º
e seguintes da Lei do Referendo (15A/98). Maria de
Belém Roseira, presidente da comissão parlamentar de
Saúde, disse ao EXPRESSO que petição e propostas de
lei correm em carris diferentes. E acentuou:
«Acho que estamos a falar de matérias
muito técnicas que não devem ser sujeitas a
referendo. Mesmo nós, deputados, antes de
produzirmos este texto final ouvimos muita gente,
muitos especialistas, que nos ajudaram a esclarecer
dúvidas».
O documento que deverá ser
aprovado terça-feira é fruto de muitas reuniões e
audições no seio do Parlamento, num processo que se
iniciou em meados do ano passado quando quatro
propostas de lei do PS, PSD, PCP e BE deram entrada
na Comissão de Saúde. O texto a aprovar é bastante
semelhante ao da proposta do PS (ver
quadro em baixo). Deverá receber os votos
favoráveis dos comunistas, dos deputados do Bloco de
Esquerda e da maioria da bancada socialista, que tem
liberdade de voto. O EXPRESSO tentou saber a posição
do CDS mas até ao fecho da edição tal não foi
possível.
Para Carlos Miranda, do PSD, a
proposta de lei é muito polémica em pontos como o
embrião, que umas vezes é tratado como humano e
noutras como um aglomerado de células. Outro ponto
que merece a discórdia do PSD é a inseminação
heteróloga (com recurso a material genético de
terceiros) e o anonimato dos dadores. Os deputados
sociais-democratas terão liberdade de voto numa lei
que, segundo Miranda, «é fruto de um
choque de conceitos éticos e de vida de um grupo de
parlamentares». Acrescenta que na maior parte do
texto prevaleceu a vontade do PS.
A deputada Odete Santos disse que
foi feita «uma boa lei, progressista»,
que contempla a clonagem terapêutica. O único ponto
negativo é o facto de as mulheres sós não poderem
ter acesso aos tratamentos contra a infertilidade.
Ana Drago, do BE, também aplaude o texto final,
nomeadamente o facto de contemplar a fecundação
heteróloga. No entanto, o modelo de família que a
proposta impõe não contempla novas realidades da
sociedade. «É um modelo conservador de
família», explicou a deputada do BE.
- Beneficiários:
casais
heterossexuais
(casados ou
em união de
facto há
pelo menos
dois anos)
- Maternidade
de
substituição:
são
proibidos os
negócios
jurídicos
gratuitos ou
onerosos. É
tolerada em
casos
excepcionais.
Um exemplo:
uma mulher
sem útero
pode
recorrer a
uma irmã
para a
gestação de
um filho
seu. Mas se
houver
processo
judicial o
filho é da
segunda
mulher.
- Fecundação
heteróloga:
casais podem
recorrer a
material
genético de
terceiros,
como
ovócitos,
espermatozóides
e embriões.
O filho
deste casal
nunca poderá
conhecer o
pai/mãe
biológicos a
menos que
haja uma
decisão
judicial.
Nos bancos
de esperma é
garantido o
anonimato do
dador.
- Embriões
excedentários:
ao fim de
três anos
podem ser
usados para
investigação
desde que
portadores
de anomalias
ou obtidos
sem recursos
a
espermatozóide
(clonagem).
Só podem ser
usados
embriões em
relação aos
quais não
exista
projecto
parental
- São
proibidas
técnicas
para
manipular
características
do bebé
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