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Diário de Notícias - 30 Mai 05
Educação e Ciência de
pacotilha
João César das Neves
Na educação travam-se hoje debates cruciais onde as
leis e o Estado são chamados a intervir. Este mês os nossos jornais referiram
dois exemplos que ilustram bem o fenómeno. Com a curiosidade adicional de
manifestarem o equilíbrio delicado entre pais e professores. Família e escola
são cruciais na formação do jovem, mas esta complementaridade é esquecida,
acabando em brigas e censuras, cada uma atribuindo à outra a culpa dos
problemas.
No seu artigo "Fundamentalismo" no DN de dia 18, o Dr. Francisco Sarsfield
Cabral lembrou o caso de alguns pais de Topeka, Kansas, que colocaram escolas em
tribunal por ensinarem a teoria da evolução de Darwin. O que está em causa aqui
não é o poder paternal na educação dos filhos, a religião ou a qualidade da
referida teoria. "Como qualquer outra tese científica, a teoria evolucionista
não é intocável nem imune à crítica; ela serve de explicação até ser desmentida
pelos factos e surgir outra teoria melhor", como diz o Dr. Cabral. O problema é
o da liberdade de os professores ensinarem a ciência estabe- lecida. Qualquer
que seja a opinião pessoal dos pais, eles não podem tirar à escola o direito de
incluir nos seus programas a visão que a investigação actual aceita como
consensual.
O segundo caso, que revela os limites deste direito, é o que o Expresso
levantou sobre "Educação sexual polémica". Basta ler, sem comentários, alguns
trechos dos manuais dessa disciplina para revelar as aleivosias ideológicas
escondidas sob a capa de ciência. Por exemplo, os "conteúdos para o pré--escolar
e o 1.º ciclo aprender a realizar a masturbação, se existir, na privacidade;
conhecer diferentes tipos de família; adquirir um papel de género flexível e
reconhecer comportamentos sexuais como carícias, beijos e relações coitais" (Expresso
14/Maio, p. 23). Neste caso são professores que abusam do seu poder. O que
está aqui em causa é o direito de os pais se protegerem de teses científicas de
pacotilha que alguns na escola pretendem impor.
O caso é grave. Mas as reacções à notícia foram ainda mais tristes que os
factos. O Ministério, indignado, protestou a sua inocência, afirmando nada ter a
ver com isto. "Não há programa oficial ... Não existem manuais" (Expresso
21/Maio, p.16). Parece que esta proclamada irresponsabilidade das autoridades
nos deveria descansar quanto ao rumo da educação dos nossos filhos!
Os manuais são, naturalmente, da famigerada Associação para o Planeamento
Familiar, a instituição nacional oficiosa para assuntos do baixo-ventre. Os seus
autores não negam nenhuma das afirmações do jornal. Limitam-se a falar em
"retirar textos e imagens dos seus contextos" (loc. cit p.17; em que contexto é
que aquelas parvoíces e alarvices seriam justificadas?) e a atacar violentamente
quem os criticou. O caso introduziu mesmo um novo termo na polémica nacional
"ultraconservador". Ficámos a saber que quem defende que a masturbação,
homossexualidade e promiscuidade não são coisas boas, ou que a relação sexual
deve ser dentro do casamento, é "ultraconservador". Este grupinho de iluminados
não entende que essa classificação se dirige à esmagadora maioria da população
portuguesa.
O paralelo entre os pais de Topeka e autores dos manuais é evidente. Ambos têm
uma opinião abstrusa e extremista, que consideram falsamente como científica e
pretendem impor à sociedade através do Estado. Os "criacionistas" americanos e a
APF são igualmente fundamentalistas, para usar o título do texto do DN. Mas há
uma diferença fundamental. Enquanto os pais americanos lutam por uma teoria
abstracta, a APF usa dinheiros públicos para manipular a vida futura dos nossos
jovens. Os referidos manuais, que pervertem gravemente os propósitos originais
da disciplina de Educação Sexual, enquadram-se numa vasta campanha contra a
família, de que esta é apenas uma das frentes.
A educação é um dos campos mais decisivos da sociedade e cultura. Os seus
pilares básicos têm de ser o respeito de todos pela escola, família, ciência e
virtude.
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
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