Cenários mais habituais
R.D.F.
Os internautas
A Internet é cada vez mais um meio privilegiado para se preparem fugas e planos
perigosos. Ficou célebre em Inglaterra, no ano passado, o caso de um homem que
seduziu uma criança através de um chat, levando-a a fugir de casa para ir viver
com ele. Mas há outros registos, menos trágicos, de pessoas adultas que apenas
se enamoraram na Internet e deixaram tudo para se juntarem com o amante virtual
ou que se limitaram a usar este meio como fonte de informação para o planeamento
da fuga. Foi o caso, ocorrido em Portugal recentemente, com uma rapariga de
apenas 14 anos. Farta do quotidiano da Beira Alta, a adolescente decidiu ir
trabalhar para Lisboa. A idade não constituiu problema, que aos 14 anos "estava
uma mulher feita". Mais difícil foi arranjar alojamento: não podia aconselhar-se
com muita gente; e, sobretudo, não podia aconselhar-se com as pessoas mais
próximas. Nestas circunstâncias, a Internet - o anonimato dos canais de
conversação - revelou-se, num primeiro momento, um instrumento providencial e,
numa segunda fase, uma pista policial determinante. A PJ haveria de descobrir o
paradeiro da adolescente no disco rígido de um computador: um dos interlocutores
da rapariga na Internet indicara-lhe uma pensão na zona de Monsanto, onde a
menor acabou por ser encontrada.
Os mortos
"anónimos"
Embora exista um sistema de informação com as listas dos desaparecidos e dos
mortos no Departamento Central de Informação e Polícia Técnica da Judiciária, há
quem morra e nunca chegue a ser identificado. Segundo a PJ, existem, no
Instituto de Medicina Legal (IML), muitos cadáveres por reconhecer que podem
corresponder a pessoas dadas como desaparecidas. Muitos são pessoas que não
possuíam qualquer identificação e o estado de decomposição do corpo já era
avançado na altura em que foram encontradas. Um dos casos mais intrigantes
aconteceu em Cascais, onde dois corpos foram encontrados num poço, no início do
ano passado. A secção de homicídios da PJ dirigiu-se ao local, mas praticamente
só encontrou as ossadas e peças de vestuário. Apesar de ter confrontado os
poucos elementos disponíveis no local do óbito com a lista de desaparecidos, não
foi possível - nem é crível que venha a ser - saber quem eram aquelas pessoas.
Por outro lado, outros corpos que estão no IML, embora documentados, foram
deixados ao abandono. "Há quem saiba que o familiar morreu, nomeadamente quando
eles são indigentes, sem-abrigo, mas não reclama o cadáver para não arcar com as
despesas do enterro", explicou um polícia.
Os adolescentes insatisfeitos
É o grupo que em Portugal mais contribui para o volume dos desaparecidos.
Frequentemente são rapazes ou raparigas com famílias problemáticas. Associado a
isso pode haver uma gravidez indesejada, que precisa de ser escondida dos pais;
ou problemas de toxicodependência e delinquência juvenil. De acordo com a PJ,
alguns também fogem dos vulgarmente chamados "colégios de correcção". Segundo a
polícia, a experiência revela que voltam para casa, quase sempre, passados
poucos dias, sobretudo quando o dinheiro e o alojamento começam a falhar. A
investigação deste tipo de casos passa muito por interrogatórios aos pais, no
sentido de se reconhecerem litígios parentais e de se formar um perfil do
desaparecido. Pode também ser necessário contactar os amigos, por vezes os
únicos a quem foi revelada a fuga. Aparentemente inconsequentes, estes
desaparecimentos podem marcar profundamente os pais e familiares dos
adolescentes. Estes fugitivos imberbes, devido ao processo de ruptura familiar
próprio da idade, raramente ponderam devidamente o sofrimento que causam.
O homem
do tabaco
É um lugar-comum da ficção mas, como quase todos os lugares-comuns, sustenta-se
na realidade. A história do homem de 50 anos que, a meio do serão, se levanta do
sofá e avisa a mulher de que vai "só ao café comprar cigarros" acontece mesmo e
"acontece muitas vezes". São pessoas que querem desaparecer, ou porque estão
fartas da mulher ou porque têm dívidas. E são sobretudo homens, de facto. De
entre os desaparecidos adultos reconhecidos pela polícia, no ano passado, 87
eram do sexo masculino e apenas 40 do sexo feminino. Ainda que não exista
qualquer explicação científica para a discrepância, parece óbvio que o homem
arrisca mais porque goza de maior autonomia financeira do que a mulher. Estas
viagens podem ser muito longas, sendo normal quem foge estabelecer-se no
estrangeiro. A Polícia Judiciária consegue, muitas vezes, identificá-lo. Mas, se
o "desaparecido", uma vez detectado, afirmar não querer ser localizado - seja
por que razão for ,- a polícia apenas pode comunicar que a pessoa está bem, uma
vez que se trata de adultos e no seu perfeito juízo. É também por esta razão que
as diligências relativas a estes desaparecimentos habitualmente são relegadas
para segundo plano - em comparação com as participações de desaparecimento de
menores ou pessoas com perturbações mentais.