A sexualidade e as suas vivências são um assunto
tão sério que, de verdade, deveria ser pensado o que fazer para
melhor ajudarmos os mais novos a vivê-la saudavelmente. Sobretudo
quando a realidade portuguesa indica números muito dolorosos para
que, de verdade, ninguém faça nada
Foi com bastante espanto que muitos profissionais
da área da infância e da adolescência acolheram as notícias
recentemente vindas a público num semanário sobre as
experiências-piloto levadas a cabo em algumas escolas a propósito da
introdução de uma disciplina de Educação Sexual para alunos de 2.º
ciclo (5.º e 6.º anos de escolaridade), ou seja, para rapazes e
raparigas de idades compreendidas entre os 10 e os 12 anos de idade.
Fazendo capa com essa notícia, pudemos ver como, partindo de
desenhos de um rapaz e uma rapariga, despidos, a tocarem nos seus
órgãos sexuais, se colocavam perguntas alusivas à masturbação, do
género: "Que estão a fazer? Já alguma fez fizeste isso? Onde? Com
quem?" Seguiam-se depois outros exemplos dignos de nota: num,
sugeria-se que, sobre o referido desenho, se pintasse de vermelho
"zonas do corpo que gostas que sejam tocadas" e noutro ainda
sugeria-se que os alunos escrevessem todos os sinónimos conhecidos
de "pénis, testículos e vagina", esperando-se que depois se
afixassem os resultados num placard da sala de aula.
O comentário é inevitável e rápido: não sabemos de quem foi a ideia,
mas se esta é a proposta para actividades de educação sexual em
crianças desta idade, então só resta dizer que é melhor estar
quieto, porque assim não.
O desenvolvimento da sexualidade é uma construção que se inicia
muito precocemente na vida de cada um: aliás, ela inicia-se ainda
antes de um bebé nascer por aquilo que um futuro pai ou mãe projecta
para aquela criança. Não são inéditas situações de pais que
abandonam mulheres porque não conseguem ter um filho rapaz, mulheres
que dizem não querer uma menina porque isso lhes lembra as suas
mães, da mesma forma que são comuns os casos em que se escolhe
determinado nome porque a ele se associa uma figura familiar de
grande relevo emocional ou para manter um registo que é comum, numa
perspectiva de ligação e continuidade. Também não é à toa que os
meninos são vestidos predominantemente de azul e as raparigas de
cor-de-rosa, e que o conhecimento antecipado do sexo do bebé (para
os pais que o querem ouvir no decorrer de uma das ecografias de
rotina) permite a adaptação entre um bebé imaginado e um bebé real.
Depois, mais crescidas, as crianças apreendem os primeiros modelos
de relação sexual e afectiva através das vivências dos adultos que
lhes estão próximos, que interiorizam individualmente e em ligação
como modelos, com todas as partes boas e más que cada um tem e
acarreta. Nesse aspecto, é importante também a própria diferenciação
dos espaços, em que a especificidade do quarto dos pais simboliza a
intimidade e a privacidade, bem como a distanciação entre o mundo de
adultos e de crianças e adolescentes que, obviamente, não têm acesso
às mesmas vivências; a fantasia e o desejo organizam-se a partir do
desconhecido e do interdito. Por último, já adolescentes, é que
começam então a viver uma sexualidade ditada pelo primado da
genitalidade, quer dizer, mais próxima daquilo que será um futuro
padrão adulto.
Por acaso, o desconhecido e o interdito são pontos que, hoje em dia,
são muito facilmente ultrapassados: os mais novos recebem tanta
informação específica sobre temas de sexualidade e a ela têm tão
facilmente acesso através da televisão e da Internet que escusado
será dizer que, em muitos, o mais que se assiste é a uma morte
precoce do desejo e da fantasia. Quando assim é, o que resta (e é
tão fácil de perceber!) é pouco de mais para ser verdade: um
esvaziamento precoce do encanto da descoberta da sexualidade leva,
inevitavelmente, a adultos descontentes com o amor e com o sexo,
acabando por não tirar prazer íntimo da mais importante área do
bem-estar individual e social. Quem está bem na sua vida amorosa e
sexual está bem em (quase) tudo, isto é, tem uma fonte de energia
psíquica muito mais forte e ampla para viver e enfrentar todos os
aspectos positivos e negativos do dia-a-dia. E o oposto é igualmente
verdadeiro e são disso exemplo casos de perturbações emocionais como
algumas neuroses, depressões, somatizações (a expressão no corpo do
descontentamento da mente), comportamentos autodestrutivos (como o
consumo de álcool) e, claro está, algumas perversões sexuais.
Pela frequência actual, destacamos nos mais novos a importância da
televisão e da Internet como os dois mais fortes veículos de uma
exposição sexual que, se maciça e desintegrada de outras vivências
afectivas de qualidade (nomeadamente as que implicam uma
possibilidade de para-excitação), pode produzir fortes ataques à
integridade psíquica de crianças e adolescentes. Todos sabemos
distinguir uma normal e saudável curiosidade que é bom existir, de
casos como os de meninos que, bombardeados pelas imagens dos canais
pornográficos da TV por cabo (quantos não têm TV no quarto, quantos
não ouvem amigos, irmãos mais velhos, familiares, falar disso?,) não
têm nem capacidade física nem maturidade emocional para digerir
psiquicamente aquilo a que têm acesso e, por isso, sofrem com isso,
ou daqueles que passam horas em frente dos sites pornográficos,
isolados, sozinhos face a imagens de uma sexualidade quase sempre
distorcida, em vez de ousarem o contacto relacional com outro(s) de
idades próximas? Que fantasiam estes rapazes e raparigas? E, sobre o
que fantasiam, como o agem na realidade, quer dizer, que uso dão a
isso nas suas vidas diárias? Como afecta isso "as partes que gostam
que sejam tocadas" ou "o que fazem, onde fazem e com quem fazem"?
A sexualidade e as suas vivências são um assunto tão sério que, de
verdade, deveria ser pensado o que fazer para melhor ajudarmos os
mais novos a vivê-la saudavelmente. Sobretudo quando a realidade
portuguesa indica números muito dolorosos para que, de verdade,
ninguém faça nada: primeiros da União Europeia na taxa de
maternidade adolescente, o mesmo lugar na taxa de infectados pelo
vírus da sida, número não contabilizável de abortos como forma de
contracepção e sem que, em nenhum dos exemplos referidos, rapazes ou
raparigas recebam suporte emocional minimamente digno. Que faz da
sua vida uma rapariga que é mãe aos 15 anos de idade e um rapaz que
é pai aos 16 anos? E aquela que aborta sozinha, nas piores condições
imagináveis, sem suporte familiar ou social que a ampare? E, se
existir um futuro bebé, não dá ainda para perceber que tudo o que
desde logo se passar vai marcar a sua própria vida e, dentro dela, a
vivência da sua sexualidade? É que, quando nasce uma criança, há
sempre uma história de três gerações que está presente no quarto de
uma enfermaria: a do recém-nascido, a dos seus pais e, nestes,
aquilo que em fantasia ou na realidade os seus próprios pais lhes
deixaram...
A sexualidade é um caso sério de mais para ser tratado da forma
banal, crua, desadequada, patética mesmo, como nos exemplos
referidos. E, mais importante ainda: enquanto se continuar a falar
deste tema desenquadrado do amor (amor próprio, amor pelo outro),
será muito difícil chegar a algum lado significativo. E, sobretudo,
enquanto se fechar os olhos à noção de que a sexualidade é,
essencialmente, resultado de um profundo diálogo interno, onde são
as emoções e os afectos longamente vividos e experienciados que
determinam os respectivos comportamentos, andaremos a pintar de
negro (e não de vermelho) as vidas, corpos e mentes,de muitos
rapazes e raparigas. E disso já se vê que baste de muito mal-estar.
Pedopsiquiatra