| Diário de Notícias - 24 Mai 04 O ano da
família
João César das Neves
A família é a questão decisiva, o elemento fracturante, o aspecto
social central da nossa era. Os partidos políticos ainda não o
entenderam. Organizados para questões de épocas anteriores ficam
perplexos nestes debates. Mas é cada vez mais evidente que a família
será o assunto do século XXI.
O século XVIII lançou a «revolução sociopolítica» para eliminar os
privilégios da aristocracia e governar por sufrágio. O sucesso foi
esmagador. Hoje só os excêntricos contestam a democracia e preferem
a nobreza de sangue. A revolução funciona bem a derrubar barreiras e
implantar igualdade. No século XIX seguiu-se a «revolução económica»
para eliminar a propriedade privada e liberdade de iniciativa em
favor da economia dirigida pela ciência. Foi o fiasco esmagador.
Hoje só os excêntricos querem a ditadura do proletariado e o plano
quinquenal. A revolução não é boa a criar novas instituições.
Com a vitória da democracia e da empresa, o século XX trouxe a
terceira revolução, a «revolução sexual», para criar novas
instituições, agora na intimidade de cada um. A família, célula
básica da Humanidade, foi contestada como opressiva, preferindo-se a
liberdade de costumes, promovendo-se promiscuidade, adultério,
luxúria. A política envolveu-se na alcova. Hoje a legislação gira em
volta destes temas, do divórcio ao aborto e eutanásia, da promoção
da contracepção à clonagem e educação sexual laxista, da exaltação
da união de facto e desvio sexual. E a sociedade divide-se, como há
200 anos nas lutas sociais e há 100 nos embates económicos.
Os partidos, estruturados para guerras antigas, ficam perplexos.
Esforçam-se por perpetuar a luta socioeconómica, empolando pequenas
divergências e distinções espúrias. Mas uma vez no poder, todos
fazem igual, perante o consenso geral nos temas das primeiras
revoluções, igualdade e democracia, mercado e empresa. Entretanto as
questões familiares, realmente fracturantes, racham-nos ao meio com
militantes dos dois lados da barricada.
O resultado é a confusão política, a improvisão, inconsistência,
manipulação. O PSD é contra o aborto mas promete mudar de ideias. O
PS é contra o casamento de homossexuais, ou talvez não. O Governo
apoia a família de manhã na Segurança Social e ataca-a à tarde na
Educação, Finanças e... Segurança Social. Nestes temas, a JSD alinha
com o Bloco de Esquerda. Ninguém se entende.
Todos recomendam a tolerância, mas isso não clarifica prioridades
políticas. Também respeitamos os povos, mas escolhemos os aliados e
defendemos a cultura portuguesa; respeitamos toda a gente, mas
apoiamos os pobres, o teatro, a indústria.
Respeitando sempre todos, o que queremos neste assunto?
Todos os estudos mostram que a família é a forma natural e eficaz de
promover a educação, saúde, felicidade e combater o crime,
injustiça, violência. E a única maneira de parar a fatal decadência
populacional europeia. Sem discriminar as pessoas, deve-se sempre
promover a família e reconstruí-la se necessário. Essa evidência é
hoje desafiada a cada passo.
Tal como os marxistas preferiam as suas invenções económicas, hoje
risíveis, ao mercado natural, muita gente toma os velhinhos deboche,
perversão e aborto como o último grito da modernidade e vê a família
em vias de extinção. Nos anos 50 dizia-se o mesmo da empresa.
A família é hoje a questão central.
Os erros aí destruirão muito mais que na política e economia.
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
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