Público - 15 Mai 04

"É Uma Forma de Podermos Tratar dos Nossos Assuntos"
Por POR SUSANA DUARTE

Uma menina de dois anos abre uma das portas do armário da pequena cozinha e retira um auscultador de telefone, coloca-o na bancada, e tenta abrir a torneira. Depois, recolhe-o e coloca-o no forno. A seguir, junta-lhe um carrinho. "Ficava aqui uma manhã inteira", diz a ama, que a observa encantada do exterior da sala.

Maria Monte, a ama, deixou a menina no Espaço Infantil Imediato, no Fórum Cultural de Ermesinde, antes de ir aos correios e às finanças. Como não tinha onde deixar a criança durante uma hora, levou-a para ali. "É uma forma de podermos tratar dos nossos assuntos e é bom para ela, porque convive com outras crianças", explica.

Foi por isso que o Espaço Infantil Imediato surgiu, com o propósito de libertar os encarregados de educação, por uns momentos, para que "possam resolver os seus problemas, facilitando, assim, o dia-a-dia dos cidadãos", informa Eunice Neves, responsável pela Agência Para a Vida Local, o organismo da Câmara Municipal de Valongo que dinamiza este projecto pioneiro no país. É um espaço gratuito, aberto das 10 à 18 horas às crianças com idades compreendidas entre os dois e os dez anos.

Livros, jogos didácticos, jogos de construção, carrinhos e muitos outros objectos de cores e formas variadas são as "ferramentas" de trabalho. O espaço, constituído por duas salas de reduzida dimensão, está devidamente equipado e oferece segurança às crianças. "Se fosse maior era prejudicial, porque não oferecia tanta segurança e, com poucas crianças, a atenção por parte das educadoras é redobrada", defende Manuela Ribeiro, mãe de uma das crianças que brincam alegremente na sala.

O Espaço Infantil Imediato tem uma capacidade máxima de dez crianças, supervisionados por duas educadoras e uma auxiliar, e, para controlar a afluência ao centro, cada encarregado de educação tem um crédito de cinco horas semanais, podendo mesmo reservar previamente um horário. Para já, a unidade conta com 53 inscritos, mas todos os dias tem recebido novos interessados.

"Conciliar a vida familiar com a vida profissional" tem sido, nas palavras de Eunice Neves, a meta do trabalho desenvolvido pela Agência Para a Vida Local. Para a responsável, as mudanças que a sociedade tem enfrentado necessitam de resposta. "Os pais passam demasiado tempo no trabalho, as famílias estão desenraizadas, as gerações mais velhas vivem em mundos diferentes das mais novas e é necessário arranjar soluções para estes novos problemas", resume a responsável.

A agência tem desenvolvido diversas actividades neste sentido. Um dos projectos é a criação de um posto de prestação de informações, assim como de formação. Interpretar horários de autocarro, aprender a cozinhar, a tratar da casa e dos filhos são algumas das actividades que se podem desenvolver.

Outro projecto, que visa aproximar as várias gerações, é o Área Júnior e o Área Sénior, através do qual os participantes contactam com as novas tecnologias e partilham depois a aprendizagem. "Os avós não entendem o que os netos aprendem na Internet, os mais novos também não perdem tempo a ensiná-los. Mas é necessário que adultos e jovens partilhem as suas experiências, para que tenham uma maior compreensão", aponta Eunice Neves.

[anterior]