Num tempo que se diz tolerante, é
estranha a ignorância geral do princípio mais básico da tolerância. Bem sei que
se trata de um princípio cristão, uma das poucas coisas que os nossos tolerantes
não toleram. Mas, mesmo assim, surpreende esta omissão porque, afinal, as
ideias-base da sociedade moderna são cristãs.
Trata-se da distinção fundamental entre o mal praticado e a pessoa que o
pratica. O mal deve ser sempre repudiado, precisamente porque é mal, enquanto a
pessoa deve sempre ser respeitada, precisamente porque é pessoa. Não se toleram
erros, abusos, crimes; o que se tolera são cidadãos, pessoas, irmãos. Como se
diz na catequese, deve-se odiar o pecado e amar o pecador. Quem levou isto ao
máximo foi o próprio Cristo que, no mesmo fôlego, exigiu o extremo do rigor e da
caridade. «Seja a vossa palavra sim, sim; não, não. Tudo o que passa disso vem
do Maligno (...) Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem, para
serdes filhos do vosso Pai que está nos céus.» (Mt 5, 37 e 44-45).
Esta distinção, evidente e essencial, é difícil de fazer no quotidiano. Por isso
se vê continuamente condenar as pessoas com os seus actos ou absolver o mal por
causa da clemência com o maldoso. Na nossa sociedade, que se diz tolerante,
estes dois erros são cometidos a todo o momento, mas em áreas distintas.
Se falarmos de lixos tóxicos, de racismo ou de exploração laboral, aí não há
qualquer piedade, nem para os actos nem para as pessoas. O nosso tempo não
aceita estas coisas de forma nenhuma e persegue sem remissão quem as comete. Mas
se falarmos de adultério, de evasão fiscal ou de homossexualidade, aí o legítimo
respeito pelos envolvidos pretende anular a indiscutível desordem das acções.
Nos primeiros males não há compaixão possível; nos últimos não há mal nenhum. O
recente repúdio pela guerra transformou-se em ataque aos americanos, enquanto se
desculpa o divórcio pelos divorciados. Seria como gostar da cegueira por amor
aos cegos.
Não se podem tolerar todos os estilos de vida; muitos têm de ser repudiados.
O que se deve, mais que tolerar, respeitar e amar são todas as pessoas, qualquer
que seja o seu estilo de vida. Mas a opinião comum diz exactamente o contrário
disto.
O mais curioso é que esta confusão está agora a cair no extremo, penetrando no
insólito. A intolerância impiedosa das pessoas verifica-se em acções cada vez
mais inócuas, enquanto a benevolência culposa chega já a crimes de sangue. Quem
sujar uma praia, fumar em recintos fechados ou tiver excesso de alcoolemia é tão
repudiado quanto os nazis.
Mas um drogado, uma mãe que aborta ou quem defenda a eutanásia é, não só
absolvido, mas visto como um herói.
Estes últimos casos são particularmente graves, porque aí o violento é também
uma das principais vítimas da sua violência. Isso, muito justamente, suscita a
nossa simpatia e compaixão.
Mas não pode ser motivo para aceitar a maldade ignóbil que ele fez... e o
atingiu.
O grande respeito e carinho que nos merecem as mulheres envolvidas no aborto,
por exemplo, não desculpa o mal que cometeram no filho.
Não se pode negar a evidência da morte dos bebés no acolhimento dado às mães. O
recente lema eleitoral «Aborto não é crime absolutamente» constitui, pois, uma
mentira patente e uma magna aleivosia.O que, claro, não nos impede de tratar com
respeito esses políticos, apesar da sua maldade.