Ecclesia - 15 Mai 03
A Família na encruzilhada da falta de
valores
As famílias portuguesas vivem uma "dicotomia cultural" que as
leva a desejar uma vida familiar estável mas a optar por uma vida marcada pelo
efémero, pelo consumismo e pela falta de valores. Assim o afirma à agência
ECCLESIA a coordenadora nacional para a política da família.
"As motivações e as esperanças para a família de hoje são enormes, o desejo de
que a família funcione e seja o núcleo essencial da sociedade permanece", refere
Margarida Neto. "A dificuldade é que o mundo de hoje está virado para outros
valores: entre a estabilidade da vida familiar, o tempo para o acompanhamento
dos filhos, e a velocidade consumista do nosso mundo opta-se muito pela voragem
do consumo. Daí que os nossos tempos de trabalho não estão feitos a pensar na
família, o trânsito, a escola, a falta de creches, a ausência de trabalho em
tempo parcial, tudo isso acrescenta dificuldades à vida familiar", acrescenta.
Analisando a realidade que nos rodeia, Margarida Neto explica que se pode
encontrar três níveis na vida em e para a família: "há um nível pessoal, da
motivação para a felicidade, que é constante e vem do coração do homem, mas
esbarra com a cultura dominante em que tudo é feito a pensar no efémero, havendo
um choque entre as duas tendências que nos coloca numa situação particularmente
difícil".
NOVOS ORGANISMOS PARA A FAMÍLIA
Inserido nas comemorações do Dia Internacional da Família, o Ministério da
Segurança Social e do Trabalho dá posse ao Conselho Consultivo dos Assuntos da
Família e ao Observatório para os Assuntos da Família.
O Conselho Consultivo "é um órgão que tem por missão assegurar que a família
seja uma preocupação transversal em todas as políticas, em todos os ministérios.
Este conselho, com mais de 30 pessoas, será depois repartido em vários grupos de
trabalho", explica Margarida Neto.
O Observatório da Família - "um organismo em que eu tenho muito empenho",
confessa Margarida Neto - será a sede da análise da problemática familiar. "Nós
não vamos fazer estudos, mas compilar os que existem e tentar interpretá-los. O
trabalho do observatório passa por tentar perceber o que se passa por detrás dos
números, com um serviço central de 5 pessoas e uma rede - um polvo - com
universidades, instituições, o Instituto de ciências da família na UCP, para
criar uma informação sólida sobre a problemática familiar".
A cerimónia da tomada de posse destes dois organismos realiza-se hoje, 15 de
Maio, no Salão Nobre do Ministério da Segurança Social e do Trabalho, às 15
horas.
Ao longo de todo o dia a televisão portuguesa tem vindo a passar alguns "spots"
sobre a família, entre os quais se inclui um pedido de João Paulo II: "Família,
torna-te aquilo que és!"