Público - 5 de Maio

Filhos de Pais Separados Têm Mais Insucesso Escolar
Por SANDRA SILVA COSTA

Investigação em França

Em todas as classes sociais, os miúdos que vivem com o pai e com a mãe têm mais possibilidades de prosseguir no sistema escolar, concluiu um demógrafo


O insucesso escolar é mais visível nas crianças cujos pais estão separados. Esta é a principal conclusão de um estudo efectuado pelo Instituto Nacional de Estudos Demográficos (INED) francês, que quantificou, pela primeira vez, as diferenças que se estabelecem entre o rendimento dos filhos de pais separados e o dos miúdos que ainda vivem com o pai e com a mãe. Intitulado "Separação e divórcio: que consequências no sucesso escolar das crianças?", o estudo foi coordenado pelo demógrafo Paul Archambault e foi esta semana divulgado pelo "Le Monde".

Ao diário francês, Archambault começa por referir que, para além de se ter banalizado, "a situação de filhos de pais separados é sem dúvida mais bem aceite em termos sociais". Esta constatação poderia levar a pensar que os efeitos do divórcio estão agora mais atenuados e que não perturbam da mesma maneira as "performances" escolares. Só que, constatou o investigador, "a realidade verificada é completamente diferente".

"A proporção de crianças que vivem uma transição familiar não pára de aumentar", lê-se no estudo do INED. Basta olhar para os números: nos dias de hoje, quatro em cada dez casais franceses divorciam-se; em Paris, um em cada dois casamentos termina em ruptura. Uma vez vulgarizado o divórcio e mais aceites as recomposições familiares, "são notórias as diferenças no rendimento escolar entre as crianças que viveram a separação dos seus pais antes da idade da maioridade e as que viram preservada a união" dos progenitores, adianta Archambault.

Qualquer que seja a origem social e cultural das famílias, "a separação dos pais antes da maioridade reduz, em média, a duração dos estudos dos filhos entre seis meses a mais do que um ano", nota o investigador. Nas classes mais populares, o divórcio ou a separação dos pais reduz as hipóteses de as crianças obterem o ensino secundário, enquanto que nos meios mais favorecidos são os estudos superiores os mais afectados.

Nas famílias de origem mais modesta, a taxa de obtenção do diploma do secundário ou de estudos superiores baixa de 53 para 30 por cento nos casos de separação. Os filhos de operários, por exemplo, têm 50 por cento de hipóteses de deixar o sistema escolar sem nenhum diploma quando os pais estão separados - um número que desce para os 37 por cento quando os progenitores permanecem juntos.

Ao longo do seu estudo, Archambault sublinha ainda que as incidências do divórcio na escolaridade são menos importantes nos casos de recomposição familiar, ou seja, quando um dos pais encontra um novo companheiro. Neste casos, nota o demógrafo, "efectua-se uma recomposição económica, que assegura uma escolaridade pelo menos até ao fim do secundário". Nas famílias monoparentais, continua, "há muitos problemas financeiros" que, não raras vezes, impedem o prosseguimento de estudos.

Talvez por isso, prossegue Archambault, citado pelo "Le Monde", verifica-se que "os jovens que viveram a separação dos pais deixam mais precocemente o meio familiar, em média dois anos mais cedo".

Conclusões do estudo não são pacíficas
As conclusões do estudo de Paul Archambault não são muito pacíficas. Thierry Blöss, professor de sociologia na Universidade da Provença e especialista em assuntos de família, está convicto de que o autor do estudo apresenta uma visão do divórcio ligeiramente "patológica". "Mais do que o divórcio como acontecimento, são as condições sociais da vida antes e depois do divórcio que é preciso levar em conta [na hora de avaliar as repercussões no rendimento escolar]", diz. E acrescenta que é preciso também não esquecer que "o facto de existirem desentendimentos entre os pais que permanecem juntos pode trazer consequências devastadoras para as crianças".

Por seu lado, Marie Duru-Bellat, professora de Sociologia na Universidade de Borgonha e especialista em educação, adianta que o estudo sobrestima ligeiramente o impacto do divórcio. Na sua opinião, as diferenças observadas por Archambault entre os miúdos com pais separados e os outros não são muito espectaculares. E parecem ser explicadas mais por factores económicos ou pelas especificidades das famílias do que propriamente pelo divórcio, refere.
 

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