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Público - 4 de Maio
Obviamente, Apoio
Por SANTANA CASTILHO*
Disse e sustento que os programas com que os partidos, com expectativas de
vencer, se apresentaram ao último sufrágio primavam pelos lugares-comuns e
pela ausência de ideias novas. Reitero a opinião que emiti quanto à
pobreza do programa do Governo. Não gostei do desempenho do ministro da
Educação na Assembleia da República, nem dos primeiros sinais que emitiu
sobre o que iria ser a sua actuação. Mas confesso-me agradavelmente
surpreendido com o que se seguiu. Entre as palavras e os actos há uma
distância que aconselha moderação de expectativas. Mas o que me parecia
mais um "flop" deu lugar ao entusiasmo e justifica que aqui fixe e comente
as intenções tornadas públicas por David Justino, a saber:
1. Devolver às aulas dez mil professores de "horário zero". Ter
professores ocupados em tarefas administrativas, quando foram formados
para dar aulas, é gestão danosa. Mas a operacionalização da medida, para
não resultar em desastre, deve ser acompanhada da reorganização dos
serviços e da criação de um sistema operante e credível (leia-se assente
em resultados) de avaliação do desempenho dos professores. Todos os
sindicatos vão desenterrar os machados e dez mil "contrariados" serão
lançados num sistema de qualidade já de si pobre. É obra! Um ministro que
se confessou não adepto de revoluções ficará, se cumprir, como o maior
revolucionário dos últimos tempos. Obviamente que contará com o meu apoio.
2. Retomar o rigor na medição do saber dos alunos . As causas pelas quais
se não aprende são importantes e devem ser actuadas. Mas aprovar alunos
por terem aceitáveis razões para não terem aprendido é simplesmente tonto.
Em boa hora David Justino diz querer inverter a situação, embora tenha,
certamente, consciência da feroz oposição que lhe vão mover "pedabobos",
pais e alunos. Parece-me muito curto o compromisso de fazer até ao final
da legislatura os primeiros exames nacionais do 9º ano, quando é muito
mais e mais rápido o que deve e pode ser feito. Mas a coragem demonstrada
justifica, obviamente, o meu apoio.
3. Fim da escolaridade obrigatória... com frequência facultativa. A
permissividade é ridícula, quando chegamos ao ensino obrigatório. David
Justino veio falar do que é óbvio, mas com o mérito de dizer o que os
antecessores ignoraram. Afirma ir repor os chumbos e as faltas. Fala de
deveres dos pais que, habitualmente, apenas estão atentos aos seus
direitos. Invoca a lei, que de facto existe, e diz que os vai
responsabilizar. Obviamente, só pode ter o meu apoio.
4. Congelamento da contratação de docentes a partir de 2003/2004. Dura,
impopular mas necessária medida. O aumento da produtividade do sistema
passa por aí. Só lamento que nenhuma articulação com o ensino superior
tenha sido visível. Vai o ensino superior continuar a oferecer
licenciaturas em ensino, ao ritmo actual? Uma coisa arrasta a outra, mas a
lacuna não impede que, obviamente, apoie a medida.
5. Fim das "pausas lectivas". As chamadas "pausas lectivas" são um dos
vários diletantismos da pedagogia bacoca vigente. Suspendem-se as aulas
para os professores reflectirem, como se a reflexão não devesse ser
apanágio do seu quotidiano. Os governantes querem os professores nas
escolas e os pais protestam por lhes mandarem os filhos para casa,
enquanto os sindicatos acham que os ditos já estão cansados... um mês
depois de terem começado a trabalhar. Só posso assinar por baixo de medida
que extinga esta guerra de alecrim e manjerona. Pena é que, da mesma
penada, não tenha ido às urtigas a palermice do "estudo acompanhado" e do
"trabalho de projecto".
6. Devolução da autoridade ao professor para impor a indispensável
disciplina. As situações de pequena indisciplina geram indisciplina cada
vez maior, quando não se lhes põe imediato cobro. O sistema está à beira
do insustentável, graças ao lirismo de quem trouxe para a escola as regras
processuais dos tribunais. David Justino prometeu inverter o ciclo. Só os
demagogos não o apoiarão.
Para além do que acima sumariei e retirei das declarações públicas de
David Justino, outros aspectos me sensibilizaram no discurso do ministro.
Refiro-me ao que me parece ser uma atitude mais aberta, por contraste com
a posição oficial anterior, relativamente ao ensino privado, sobre o qual
não descortinei reservas ou preconceitos. Refiro-me também à ideia,
expressa a contra-corrente dos pedagogos de serviço, de promover o
conhecimento público das classificações que venham a ser feitas das
instituições de ensino. Refiro-me ainda a uma clara rejeição dos
lugares-comuns que fizeram escola e notabilizaram os "cientistas" da
educação.
Em oposição ao anterior está a anunciada formação dos professores nas
primeiras semanas de Setembro. O pragmatismo subjacente a tudo que foi
analisado soçobra aqui. Há muito que defendo que o problema não é o de dar
mais formação, mas o de tirar partido das competências e dos conhecimentos
que os professores já possuem. O problema não é o de dar injecções de
formação nas duas semanas que antecedem o ano lectivo, mas o de tornar
eficaz e relevante a formação que se professa nos cursos universitários. O
problema é, em resumo, mais do que termos maus professores, não termos um
sistema de gestão de recursos humanos que lhes dê razões para serem bons.
*professor do ensino superior
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