Diário de Notícias - 28 de MaioEnsino básico:
ministério quer fechar 1764 escolas
MARIA JOSÉ MARGARIDO
Há 1764 escolas do 1.º ciclo que correm o risco de ser encerradas em
breve pelo Ministério da Educação. Têm menos de dez alunos e estão, por
isso, ilegais: um decreto-lei determina que as instituições de ensino
nessas condições devem cessar o seu funcionamento.
A legislação não é nova (data de 1988), mas a vontade política do novo
ministro em fazer avançar o processo é assumida. O processo, aliás, já
começou: está a ser conduzido pelas autarquias, sendo certo que vão fechar
28 escolas já no final do ano lectivo, em Lisboa, Vila Real e Alfândega da
Fé. Pais e professores concordam na necessidade de agir rapidamente, mas
não alinham no encerramento puro e simples das instituições de ensino.
Os números provocados pela prolongada baixa de natalidade são
assustadores: as escolas básicas e secundárias do País perderam 200 mil
alunos nos últimos cinco anos. E assim se chegam a realidades como a que o
DN hoje retracta: há 36 instituições de ensino do 1.º ciclo que são
frequentadas por apenas uma criança, que todos os dias se desloca até um
edifício construído para albergar pelo menos mais 19 colegas seus, sem
beneficiar de um dos aspectos fundamentais da educação: a socialização.
Existem ainda 48 escolas onde o professor dá aulas para apenas dois
meninos - que podem não estar no mesmo ano de escolaridade -, e 40 onde
apenas aprendem o bê-a-bá três alunos. Os dados foram recolhidos e
trabalhados por Horácio dos Santos, professor e orientador científico da
Licenciatura em Matemática na Universidade Lusófona.
Face a esta realidade, o ministro da Educação já fez saber que pretende
cumprir a lei de 1988, que obriga ao encerramento das escolas do 1.º ciclo
(antigas primárias) com menos de dez alunos. A medida defendida por David
Justino não é apenas pedagógica - enquadra-se na contenção de despesas
anunciada pelo Executivo. Como estas instituições de ensino dependem
essencialmente das câmaras municipais, o processo está a ser conduzido
pelas mesmas - quando existe sintonia entre a vontade autárquica e a
governamental. O que se tem verificado com frequência. O DN tentou
contactar o Ministério da Educação acerca do assunto, mas ninguém se
manifestou disponível para falar.
"Estamos de acordo com a necessidade de reorganizar a rede, até para
bem dos alunos - mas o processo não pode basear-se apenas em critérios
economicistas", refere o presidente da Confederação Nacional das
Associações de Pais (Confap), Vítor Sarmento. A determinação pura e
simples da fasquia dos dez alunos é o que provoca maior polémica entre os
pais e os professores. "Pode não ser justo nem equilibrado. Depende de
cada situação, e aí confiamos nos autarcas para que façam o papel de
porta-voz dos nossos interesses". Afinal, "pode haver zonas do interior
onde esta medida administrativa é penalizadora para as comunidades
locais", explica Vítor Sarmento. Que avisa: "todo e qualquer processo deve
envolver sempre as famílias, para que as mudanças sejam o mais pacíficas
possível. Já está provado que, quando os pais mexem, as coisas tremem".
O secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (Fenprof) está
mesmo convencido de que o universo das escolas primárias com menos de dez
alunos é mais vasto: "devem ser à volta de três mil". Paulo Sucena está
frontalmente contra a aplicação pura e simples do normativo. "O processo
deve ter, pelo menos, duas fases: faz sentido fechar escolas que têm menos
de cinco alunos, mas é preciso pensar bem no caso das outras". Porque
"essas instituições são, muitas vezes, o único pólo de atracção para as
crianças de aldeias já de si muito desfavorecidas, e a lei é cega em
relação à realidade do País". E há ainda a ressalva de que "os professores
contratados não podem ser pura e simplesmente dispensados, caso as escolas
encerrem".
Mais grave ainda é o facto de, no universo de escolas que apresentam
uma população estudantil tão reduzida, existirem 983 instituições com
menos de dez alunos que não estão incluídas em agrupamentos - o que
significa que "se encontram totalmente sozinhas", nas palavras do
investigador Horácio dos Santos. Para quem o caminho passa efectivamente
por aí: "não pela extinção pura e simples, mas pela integração com outras
escolas".