Público - 21 de MaioContratos com Pais Que
Optaram pelo Ensino Privado Continuam por Pagar
Por BÁRBARA WONG
Escolas preocupadas
As direcções regionais de Educação ainda não receberam indicações
para proceder aos acertos
No Externato Cesário Verde, em Lisboa, praticamente metade dos 600
alunos beneficiam de um subsídio do Estado, destinado a ajudar os pais a
pagar as mensalidades das escolas e jardins de infância da rede particular
e cooperativa. Este ano, o subsídio tarda em chegar e a nova tutela ainda
não tem resposta para um dossier que classifica de "urgente". Isto depois
de o provedor de Justiça já ter intercedido junto do Ministério da
Educação (ME), pedindo que corrija a situação. Entretanto, pais e escolas
continuam à espera de ser reembolsados.
O ME celebra contratos de desenvolvimento com os encarregados de
educação que têm miúdos no pré-escolar e contratos simples para os do
ensino básico. Existe um normativo que prevê este regime e a tutela emite,
anualmente, uma nota interpretativa para calcular os rendimentos dos pais
e definir o contributo do Estado. O anterior executivo começou por recusar
a publicação da nota, só que a Associação de Estabelecimentos de Ensino
Particular (Aeep) apelou ao provedor de Justiça e este interveio, levando
o ME a retroceder.
Só que o despacho assinado, em Março, pelo então secretário de Estado
da Administração Educativa, Domingos Fernandes, não chegou a sair do seu
gabinete. A herança transitou para o novo executivo, que ainda não decidiu
o que fazer. "Este dossier foi já cuidadosamente analisado pelo senhor
secretário de Estado da Administração Educativa, dr. Abílio Morgado. Está
em fase final de apreciação e decisão" - é a resposta do gabinete de
imprensa do ME. O provedor de Justiça alertou já o novo executivo para a
situação e propôs que, fosse qual fosse a decisão, essa chegasse aos pais
antes que fizessem as matrículas nas escolas privadas. Também a Aeep já
fez o mesmo pedido.
Situação está a criar problemas financeiros
"As matrículas estão agora a decorrer e os pais perguntam-nos sobre os
contratos simples e de desenvolvimento e nós não sabemos o que responder.
Porque ainda não temos respostas para este ano, quanto mais para o
próximo", conta Lucinda Ramos, directora do Externato Cesário Verde. Esta
escola, que tem alunos do pré-escolar ao secundário, situa-se na zona
oriental de Lisboa, uma área carenciada onde "o ensino particular não é um
luxo, mas uma necessidade, porque a escola pública não responde às
necessidades dos pais que trabalham", justifica a directora.
Na Cesário Verde, são 290 os alunos que beneficiam dos contratos. A
opção da escola, que recebe estudantes "que necessitam mesmo deste apoio",
é não receber a propina por inteiro. Em vez disso, aceita apenas uma parte
e espera pelo dinheiro do ME para saldar a dívida dos pais. São 50 mil
contos por ano, contabiliza Lucinda Ramos, que confessa que, sem esse
dinheiro, "é complicado gerir a escola".
"Esta situação está a criar enormes problemas financeiros a alguns
estabelecimentos de ensino, especialmente aos que, por carência económica
dos pais, não chegam a cobrar as mensalidades devidas, só recebendo tais
quantias quando a respectiva direcção regional de Educação procede ao
pagamento aos pais", confirma a Aeep, numa carta ao secretário de Estado.
Apesar do externato ainda não ter salários em atraso, a directora
sente-se de mãos atadas e não sabe muito bem o que fazer. Se o pagamento
dos contratos simples e de desenvolvimento se atrasar, Lucinda Ramos teme
que para o ano perca metade do seu corpo discente. Se isso acontecer, terá
de despedir metade do pessoal (professores e funcionários), prevê.
À Espera de Instruções
Depois dos contratos firmados entre os pais e a tutela, cabe às
direcções regionais de Educação (DRE) fazer os pagamentos, um procedimento
que varia de região para região. Muitas já iniciaram a transferência, mas
aos pais o dinheiro só chega depois da decisão governamental. Na DRE do
Norte, os pagamentos começaram a ser feitos, não só tendo como referência
o despacho, mas também a nota interpretativa do ano passado, porque houve
escolas que apresentaram as contas com base nesse documento. Assim, na
transferência final serão feitos os acertos, explica do director regional,
Lino Ferreira. Também as DRE de Lisboa, Alentejo e Algarve começaram a
pagar, mas continuam à espera da declaração da secretaria de Estado da
Administração Educativa para proceder aos acertos.
A DRE do Centro assumiu a responsabilidade de fazer todas as contas.
"Fazemos muitas alterações, havendo alunos que sobem e outros que descem
de escalão", explica uma técnica. Os escalões são atribuídos consoante o
rendimento familiar dos estudantes. Até ao final do mês, a DREC, que pagou
tendo em conta a nota interpretativa do ano passado, tenciona cumprir
todos os contratos simples; quanto aos de desenvolvimento, poderão levar
dois a três meses até serem todos pagos. Apesar dos pagamentos estarem a
ser feitos, o dinheiro ainda não chegou às mãos dos pais. "As tranches
estão todas congeladas, porque os colégios desconhecem o método utilizado
para proceder aos pagamentos", explica fonte da Associação dos
Estabelecimentos de Ensino Particular.
B.W.