Público - 21 de MaioMães Portuguesas Interrompem
Amamentação Muito Cedo
Por CATARINA GOMES
Mais de metade no primeiro mês
Publicidade agressiva da indústria produtora de leite artificial
começa na maternidade
Mais de 50 por cento das mães portuguesas deixam de amamentar no
primeiro mês de idade do bebé. "O insucesso da amamentação é alto em
Portugal", assinala o professor de pediatria da Faculdade de Medicina de
Lisboa Gomes Pedro.
Os estudos sobre as virtudes do leite materno multiplicam-se. O último,
realizado na Dinamarca, revela que as crianças amamentadas durante os
primeiros nove meses de vida tendem a tornar-se mais inteligentes do que
os que mamaram um mês ou menos (ver PÚBLICO 12/05/02). Mas já havia provas
de que o leite materno traz benefícios: previne infecções respiratórias,
gastro-intestinais, diabetes e linfomas, evita a obesidade na
adolescência. Também as mães têm vantagens: menos problemas de cancro da
mama, vínculo afectivo mais intenso com o bebé.
No entanto, refere Leonor Levi, pediatra e autora da tese de
doutoramento "O sucesso do aleitamento: uma intervenção clínica", mais de
50 por cento das portuguesas deixam de amamentar ao primeiro mês de vida
do bebé, uma média dos vários estudos produzidos em Portugal.
Os dados mais recentes da Direcção-Geral de Saúde (1997), respeitantes
apenas à região de Lisboa, revelam que no primeiro mês eram 78 por cento
as mulheres que amamentam, aos três meses já só são 41 por cento e aos
seis meses descem para 23 por cento. No mais recente estudo nacional
(1988) os números são bastante mais baixos. Ao primeiro mês de vida, são
61 por cento as mulheres que amamentam, aos três meses são 36 por cento,
aos seis meses são 23 por cento.
Portanto, serão poucas as mulheres que conseguem chegar aos nove meses
preconizados pelo estudo dinamarquês e até aos seis meses de amamentação
defendidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS), mesmo que seja com
complementos alimentares.
A "imensa pressão" da indústria farmacêutica
Para o insucesso da amamentação contribui a "imensa pressão" exercida
pela indústria farmacêutica produtora de leite artificial, defende Leonor
Levi. "Nos hospitais portugueses é prática corrente 'bombardear' as mães
nas maternidades com ofertas", o que contraria o Código de Ética dos
Substitutos do Leite Materno (OMS), ao qual Portugal aderiu há cerca de 20
anos. Nos hospitais portugueses deveria ser proibida a publicidade ao
biberão, tetinas e chupetas.
Mais do que publicidade, acrescenta a pediatra, as ofertas feitas nas
maternidades incluem chupetas, quando se sabe que 15 por cento dos bebés
que chucham nos primeiros quinze dias de vida não conseguem mamar. Estas e
outras ofertas, alusivas à pratica do aleitamento artificial, são feitas
pelo próprio pessoal de enfermagem.
Com as ofertas vem o preenchimento de formulários que prevê a recepção
de mais informação sobre fórmulas para lactantes e produtos infantis. O
marketing "anti-leite materno" começa muito cedo, sublinha.
A insegurança, a ansiedade e o "stress" das mães estreantes justificam
também o abandono precoce da amamentação. No regresso a casa, as mães
estão a aprender a lidar com o bebé, "uma cólica do bebé é factor de 'stress'",
e toda a tensão acumulada trava ou diminui a transferência de leite,
reitera Gomes Pedro.
Outro problema é a própria aprendizagem da técnica. "O bebé tem
competência para mamar; a mãe não sabe nada, não é intuitivo, não é
natural, tudo tem que ser ensinado, a melhor posição..." Quando volta para
casa, a mãe tem que receber apoio para continuar a amamentar. Com o
desaparecimento das famílias alargadas, estes conhecimentos já não são
transmitidos como outrora, acrescenta Leonor Levi.
Em termos históricos, o abandono crescente da prática está ligado à
emancipação da mulher, que se seguiu à I Guerra Mundial, mas também à
indiferença de algum pessoal de saúde e à falta de investimento do Estado.
Gomes Pedro junta a tudo isto o pulular de berçários nas clínicas e
hospitais privados, onde as crianças são desde logo afastadas das mães,
para lhes ser dado o biberão nos primeiros dias de vida.
Segundo Gomes Pedro, bastariam "medidas simples", como consultas
pré-natais para os pais estreantes, para que os números da amamentação
aumentassem. Uma experiência realizada pelo Centro de Desenvolvimento do
Hospital de Santa Maria, numa zona da periferia de Lisboa, demonstrou o
sucesso da medida: 72 por cento das mães que foram informadas dos
benefícios amamentam até aos três meses - são apenas 18 por cento as que o
fazem sem receber informação. Leonor Levi afirma que em Portugal "são as
classes altas e mais informadas" que estão a voltar a amamentar.