Público - 20 de Maio

A Incompetência e o Facilitismo

Numa altura em que tanto se apregoam os critérios de excelência, é útil que nos lembremos de que a virtude política tem como fundamento o princípio da justa medida e do bom senso. Ora, o descrédito do nosso sistema político é devido, sobretudo, à falta de prudência e de visão estratégica que afecta a generalidade dos nossos dirigentes.

A vaidade pessoal e o interesse partidário, conjuntamente com outros focos de interesse menos claros, são factores que tolhem a imprescindível mundividência que deve ser exigida a todo e qualquer governante. A incompetência e o facilitismo do anterior governo dificilmente podem ser corrigidos através de uma governação arrogante, autista e demagógica. Se pretendemos co-habitar numa democracia sã, a participação cívica dos cidadãos não pode estar restringida ao direito ao voto. O facto de terem sido mandatados pela maioria da população não liberta os governos para legislarem cegamente, sem ter em atenção o pulsar da sociedade civil. Não é aceitável que possa continuar a existir uma tão grande discrepância entre programas eleitorais e programas de governo, por mais fortes que sejam os argumentos ou as desculpas para que isso aconteça.

A reforma do nosso sistema político não pode restringir-se a algumas medidas de fachada - o financiamento dos partidos políticos, por exemplo. A manterem-se as coisas tais como estão, não venham depois os senhores políticos armar-se em vestais inocentes, se a médio prazo os níveis de absentismo eleitoral se aproximarem perigosamente dos 50 por cento, pondo em causa a própria democracia. Mais ainda que uma reforma do sistema político, é urgente uma reforma das mentalidades. Vinte e oito anos após o golpe militar de Abril de 1974, continuamos a ser um país provinciano, mesquinho e medíocre. O compadrio e a cunha é ainda um das principais instituições que vão regendo a nossa sociedade. E a principal consequência desse facto é a nossa congénita falta de rigor e a nossa atávica apetência pela lei do desenrascanço.

A prolongar-se por muito mais tempo, o actual clima acusatório e de suspeição que percorre o debate político só pode ter consequências nefastas para o país. Independente de se saber se o défice público foi subavaliado ou está sobreavaliado, seria útil que fossem tomadas medidas concretas para evitar que esse tipo de situações se possam repetir no futuro. A não ser que queiramos ver o país transformado numa espécie de telenovela ou de "reality show".

A nossa aproximação ao nível de vida médio dos restantes países comunitários só será possível se houver, de uma vez por todas, uma aposta séria nas competências individuais. Com a concorrência dos países de Leste, há muito que o argumento da mão-de-obra barata deixou de funcionar como um atractivo para o investimento económico.

Não é mais possível que as nossas crianças continuem apenas a ser adestradas para executar e cumprir funções, sem que lhes incutamos valores sociais, éticos e comportamentais. Não é mais possível que as nossas universidades continuem a formar indivíduos que não saibam fazer a destrinça entre Shakespeare e as Margaridas Rebelo Pinto da nossa praça. Não é mais possível que se continuem constantemente a apregoar reformas para o sistema educativo, sem que o sistema educativo jamais esteja reformado. A não ser que...

Rui Carvalho, Seixal

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