Público - 13 de MaioDia Internacional da Família
Por MÁRIO PINTO
1. A FAMÍLIA E O ESTADO. Apoiei, recentemente, a ideia da reforma do
Estado. Contudo, logo tive o cuidado de dizer que se tratava de uma
reforma necessária mas não suficiente. A ideia que pretendi defender é a
de que, se a reforma do Estado visa um Estado melhor, isso não é tudo.
Desde logo porque deve andar associada à ideia de fortalecer a sociedade
civil. Ora a sociedade civil depende do Estado, pela activa e pela
passiva. O Estado pode apoiar a sociedade civil; mas também a pode
prejudicar.
A família é o "grupo natural fundamental da sociedade, e tem direito a
ser protegida pela sociedade civil e pelo Estado". É isto o que diz
textualmente o artigo 16º da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A
nossa Constituição consagra literalmente, no art. 67º, o seguinte: "a
família, como elemento fundamental da sociedade, tem direito à protecção
da sociedade e do Estado".
Porém, em Portugal a família tem andado esquecida das políticas
públicas; e, no debate de ideias na sociedade civil, realmente só a Igreja
Católica se tem mantido fiel à convicção da importância da família. Talvez
porque o Estado Novo salazarista politizou o valor da família, isso levou
depois alguns a excluir a família das preocupações do Estado democrático.
Mas trata-se de um erro.
Celebra-se no próximo 15 de Maio o Dia Internacional da Família. É por
isso oportuno sublinhar que a família é a sociedade matricial humana.
Desde logo, em vista da perfeição e da felicidade do homem e da mulher.
Mas também em vista da geração e da educação dos filhos, que têm na
família um quadro natural essencial.
Em linguagem belíssima de poesia, mas ao mesmo tempo riquíssima não só
para a teologia como também para a filosofia, a Bíblia diz assim, em
apenas três curtos versos: "1. Deus criou o homem à sua imagem; 2. à
imagem de Deus ele o criou; 3. homem e mulher ele os criou" (Génesis
1,27). Aqui está uma revelação de infindas consequências, não só para
fundamentar a nossa dignidade de criaturas à semelhança de Deus, como para
explicar a nossa natureza pessoal-em-comunhão. Tal como Deus é uno em três
pessoas distintas, tenho para mim que o triângulo do Pai, do Filho e do
Espírito Santo (o qual procede do Pai e do Filho) se pode ver projectado
analogicamente no triângulo do casal e seu(s) filho(s). Esta analogia (e
será mais do que isso) vem na Bíblia, que exalta a relação entre Deus e os
homens comparando-a à relação entre os esposos.
O mistério do homem e da mulher pode ajudar-nos a ver mais fundo acerca
da família. Que, para além de todas as dificuldades, não é uma sociedade
como outra qualquer. Isto devia ser continuamente proposto à consideração
sobretudo dos jovens, desde logo na sua educação, ainda que na liberdade
de consideração das várias culturas. Às vezes parece que a única
preocupação educativa que se tem é a de os preparar para simples relações
sexuais. O que é humanamente muito pobre e pode até ser degradante.
A política de protecção à família é transversal, compõe-se de medidas
radicadas em sectores dos diversos departamentos do Governo: económicos,
laborais, educativos, sociais, habitacionais, fiscais, etc. Por essa
razão, corre o risco de ficar diluída, e por essa forma esquecida, se não
tiver um titular expressamente responsável por ela, e se esse responsável
não for membro do Governo. Será esta razão pela qual, em grande parte dos
países, designadamente da União Europeia, há um membro do Governo com o
pelouro e o título expresso da família. Não é fácil explicar que tenhamos
tido membros do Governo por exemplo com o pelouro da juventude, mas não da
família.
É incontestável que, no nosso País, não tem havido uma política
intencional e coerente de protecção à família, como já vimos que manda a
Declaração Universal dos Direitos Humanos e também a nossa Constituição. O
actual ministro da Segurança Social e do Trabalho reconheceu-o em
entrevista recente. O que é motivo de saudação e de esperança.
2. FÁTIMA. Mais uma vez o 13 de Maio. Mais uma vez o testemunho de
muitos e muitos milhares de pessoas, de todas as condições, que peregrinam
para Nossa Senhora de Fátima. Nos tempos do Estado Novo salazarista, uma
certa "intelligentza" superconvencida inventou os famosos três efes,
"fado, Fátima e futebol", para verberar a situação política. Estariam aí
as três alienações que sintetizavam (e apoiavam) o regime. Ora bem: agora
todos vêem que nem o fado, nem o futebol, nem Fátima são obra de um regime
político. São, sim, realidades vividas muito autenticamente pelo povo que
somos. Goste-se ou não. De onde há que tirar uma lição que condena a arte
difamatória dessa "intelligenza" ideológica.
É impressionante o mistério da devoção a Nossa Senhora. Se há coisa
evidente, é que ela convoca para a fé e para o encontro com Deus.
Sobretudo os mais simples, como já sucedia com Cristo, que o fez notar
como sinal de Deus. Não se justificam, assim, os receios de certas
denominações cristãs, que vêem na devoção mariana algo que separa ou
distrai de Deus.
Uma das formas tradicionais da religiosidade popular são as
peregrinações. Verifica-se que estão tendo um revigoramento inesperado. Os
jovens de hoje fazem peregrinação mais do que os jovens de ontem, e isto é
coisa de pensar. Na história do cristianismo, as peregrinações são algo de
misteriosamente significativo. Depois que li um livro da espiritualidade
oriental, intitulado "O peregrino russo", descobri que peregrinar é um
modo humano extraordinariamente profundo de nos desapegarmos de tudo:
coisas, relações, e até dos nosso próprio espaço, sem o substituirmos por
outro. O peregrino não se instala em nenhum lugar, porque simplesmente
caminha.
O acto de peregrinar obriga a reduzir tudo ao mínimo. Ao peregrino,
qualquer utensílio é pesado. Renuncia às comodidades, à comida e à
dormida. Vai pobre e dependente de ser acolhido - o que constitui uma
inexplicável experiência mística.
Peregrinar é, por isso, um modo potentíssimo de libertação e ascese. O
peregrino consegue uma grande libertação, e fica neste sentido vazio de si
mesmo, mais capaz de receber activamente a comunicação do divino.
Que o Patriarca Abraão, Pai humano de uma grande família de crentes que
inclui judeus, cristãos e muçulmanos, tenha sido por Deus mandado sair da
sua terra e depois disso tenha peregrinado, é muito de meditar. Os judeus
são peregrinos. Os cristãos também. Os muçulmanos também. Há uma atracção
fascinante na peregrinação. Mistério da nossa humanidade.