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Público - 12 de Maio Nove
em Cada Dez Professores Afirmam Que a Indisciplina Aumentou nos Últimos
Anos
Por ANDREIA SANCHES
Criticam a burocracia dos procedimentos disciplinares, a sua complexidade
e demora. Dizem que, mesmo que pudessem, não retirariam direitos aos
alunos e são poucos os que acham que é preciso dar mais autoridade a quem
dá aulas. Um inquérito feito a milhares de professores de escolas de todos
o país revela que é no 1º ciclo que mais se sente que a indisciplina está
a aumentar.
Há muito que deixaram de ser episódios esporádicos. São muitas as escolas
que são palco de actos de indisciplina e violência. E quem o diz são as
pessoas que todos os dias trabalham nos estabelecimentos de ensino
portugueses. Entre mais de oito mil professores, funcionários e dirigentes
escolares inquiridos, oito em cada dez afirmam que a indisciplina tem
aumentado nos últimos anos. Cerca de um quarto (26 por cento) dos 500
órgãos executivos entrevistados dizem mesmo que "tem havido casos de
violência" na sua escola.
Chama-se "O Estado da Educação pela voz dos seus profissionais" e
baseia-se numa consulta nacional feita pela Federação Nacional dos
Sindicatos da Educação (FNE). Dezenas de perguntas, versando temas
diversos, foram feitas a educadores de infância e professores,
funcionários e directores de todos os níveis de ensino. A indisciplina na
escola foi um dos capítulos que a FNE quis aprofundar. Alguns dos
resultados, ontem apresentados, surpreendem; outros limitam-se a confirmar
queixas frequentemente ouvidas.
Desde logo, parece haver mais alunos indisciplinados, independentemente
dos níveis de ensino. Um sentimento que sendo, em regra, partilhado por
todos os profissionais da educação, é visível sobretudo por parte da
classe docente. Veja-se como variam as percepções de cada tipo de
funcionário: 88 por cento dos professores inquiridos afirmam que o nível
de indisciplina tem crescido, mas o mesmo é dito por uma percentagem
inferior dos funcionários não docentes (55 por cento) e dos órgãos
executivos (45 por cento). Para a FNE, "estes resultados podem ser
compreendidos fazendo referência ao quotidiano da vida escolar" - a
verdade é que são os professores que passam mais tempo directamente com os
alunos.
Críticas ao estatuto dos alunos
É na antiga escola primária que a percepção de que algo de grave se está a
passar é mais visível. Provavelmente habituados a ter, no passado, níveis
muito baixos de problemas com os alunos, a esmagadora maioria (91 por
cento) dos 2396 professores do 1º ciclo afirma que a indisciplina
aumentou; apenas 1 por cento considera que baixou e oito por cento
defendem que se mantém mais ou menos na mesma. Os órgãos de gestão têm,
uma vez mais, uma percepção bem menos dramática da situação: 55 por cento
concordam que os problemas aumentaram.
"Tem havido acasos de violência na sua escola?" - era outra das
interrogações deixadas aos CE. Mais de um quarto (26 por cento) dos
inquiridos respondem que sim. É nas escolas dos 2º e 3º ciclos do ensino
básico que a percentagem de respostas afirmativas é maior: 30 por cento.
O que é que está falhar no combate à indisciplina? O estudo da FNE deixa
algumas pistas, numa altura em que o Governo já prometeu alterar o
estatuto dos direitos e deveres dos alunos. Professores e dirigentes
escolares queixam-se, por exemplo, da falta de apoio dos pais (40 por
cento) e da falta de preparação dos professores para lidar com o problema
(menos de dez por cento). Mas é, precisamente, o estatuto disciplinar dos
alunos que actualmente vigora que mais críticas suscita: as limitações
burocráticas decorrentes da legislação são apontadas por 53 por cento dos
professores e por 36 por cento dos conselhos executivos como um dos
problemas para combater a indisciplina.
Os professores, na sua docência quotidiana, sentem de forma
particularmente intensa que "a sua intervenção está limitada por
procedimentos demasiadamente burocráticos", explica a FNE. A estrutura
sindical lembra que estes só se podem socorrer de duas medidas
disciplinares para lidar com situações problemáticas: a advertência ao
aluno ou a advertência comunicada ao encarregado de educação. Qualquer
outro "castigo" implica a instauração de um longo e complexo processo
disciplinar.
Sublinhe-se, no entanto, que à pergunta "o que mudaria no estatuto dos
alunos?" a maioria dos CE privilegiam a simplificação dos procedimentos
burocráticos - apontado por 58 por cento dos inquiridos - em detrimento do
reforço da autoridade dos professores (12 por cento) ou das direcções
escolares (menos de 10 por cento). Dizem também, na sua maioria, que não
alterariam os actuais direitos e deveres dos alunos. E apenas 3,4 por
cento defendem que se possa intervir em qualquer caso disciplinar sem
necessidade de instaurar processo.
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