Expresso - 4 de Maio

Bebés e noivos com prémio

Contra a desertificação, em Vimioso um nascimento vale 500 euros. Murça premeia os jovens casais


Rui Duarte Silva

Susana Silva, mãe aos 17 anos, será a primeira a receber o prémio da Câmara de Vimioso, que aplicará em presentes para Mariana

AS CONTAS são fáceis de fazer. Em Vimioso, no distrito de Bragança, os quatro bebés nascidos depois de 16 de Dezembro de 2001 - dia das eleições autárquicas - vão receber da Câmara local 500 euros de prémio. Um presente e não um subsídio, segundo a autarquia, válido para todo o mandato. Em Murça, outro concelho de Trás-os-Montes, no distrito de Vila Real, a promessa eleitoral para combater a desertificação tem outros destinatários: premiar os jovens que decidam fixar-se no concelho. Os subsídios dirigem-se aos já residentes que decidam casar-se e se mantenham na região e ainda aos jovens que terminem os estudos superiores e optem por ficar a trabalhar no concelho.

Em dez anos, Vimioso perdeu quase mil habitantes. Nas suas 14 freguesias vivem apenas 5315 pessoas. «É realmente um acto de coragem ter filhos em Vimioso, por isso vamos fazer esta experiência», explica Jorge Martins, do gabinete de apoio à presidência da autarquia. A ideia apareceu como promessa eleitoral durante as últimas eleições autárquicas. O PSD acabou mesmo por ganhar a Câmara ao PS, que há quatro mandatos consecutivos estava no poder. Mas, a julgar pela falta de consenso que esta medida gerou, não terá sido pelos 500 euros que José Rodrigues convenceu o eleitorado a votar nele.

Odete Castro, professora, tem 27 anos, ainda não tem filhos, mas acha a medida «um absurdo». O mais importante, diz, seria aplicar o dinheiro na construção e melhoria de infra-estruturas e acessibilidades no concelho. José Miranda, antigo presidente da autarquia, vai mais longe: «É um insulto às mães e mulheres de todo o concelho».

O actual vereador socialista diz mesmo que não é com 500 euros que se combate a interioridade e a desertificação. «O problema é da região transmontana em geral e precisa de medidas urgentes e corajosas do poder central. Esta ideia do prémio aos bebés é apenas fruto de uma campanha eleitoral», garante.

A autarquia sustenta que a ideia pretende chamar a atenção para um problema profundo. «Precisamos de uma ligação ao IP4, de mais empregos, de empresas a investir na região. É pena que, devido ao número reduzido de alunos, o ensino em Vimioso só se faça até ao 9º ano. Depois, os jovens têm que sair...», lamenta José Rodrigues.

O sorriso de Mariana

Indiferente a tudo isto, a pequena Mariana sorri, deitada na alcofa à porta de casa. Nasceu a 9 de Janeiro deste ano e, portanto, os pais vão ser contemplados com 500 euros. Susana Silva é a mãe, uma jovem de 17 anos, que deixou a escola ainda antes de engravidar. Quer continuar a viver onde sempre viveu, quem sabe um dia ter mais filhos, mas nunca pelo facto de receber 500 euros por cada bebé: «Claro que não! Isso quase não dá para as fraldas!». Mesmo assim, logo que deixou o hospital de Bragança foi à Câmara pedir o prémio. Saiu de mãos a abanar, mas com a promessa que dentro em breve vai receber os prometidos euros.

Susana viveu em casa dos sogros até esta semana, não tem emprego e conta apenas com o ordenado do marido. O dinheiro, qualquer que seja o montante, vem sempre a calhar. «Vou comprar algumas coisinhas à Mariana... O presidente disse-me que primeiro o projecto tem que ser aprovado em Assembleia Municipal, e depois logo recebo».

A autarquia está ainda a estudar a forma legal de atribuir o subsídio, que sairá do seu orçamento. Condição obrigatória é que os pais sejam residentes no concelho de Vimioso. Jorge Martins não está preocupado com a capacidade de resposta da Câmara, até porque em quatro meses nasceram quatro bebés em todo o concelho. «Quem nos dera ter que gastar muito dinheiro, era bom sinal! Mas não... Há cada vez menos nascimentos, a população é muito envelhecida», constata.

Para esse envelhecimento, Lília Preto não contribui. É uma raríssima excepção no panorama deste concelho transmontano. Por estes dias, Lília deverá dar à luz o seu quarto filho. Já sabe que é menino e já tem, pelo menos, um presente garantido. «Dá jeito, sempre são cem continhos. Não é muito, mas sempre é uma ajuda», diz. Lília garante que jamais sairia de Vimioso. Enfim, é feliz.

Três baptizados e 10 funerais

O padre Sérgio Dinis abre o computador na lista de casamentos, pestaneja, sorri e conclui: «Nunca tive tão pouca gente a casar-se como este ano...».

Em Murça, a autarquia premeia quem casa e os licenciados que regressem. No caso dos jovens casais, o subsídio será de cerca de 2500 euros, no caso dos estudantes rondará os nove ordenados mínimos - 3100 euros. Nos dois casos, o dinheiro será entregue às prestações, durante dois ou três anos. «Queremos assegurar que os jovens ficam mesmo no concelho e que não se vão embora logo depois de receberem o dinheiro», diz João Fernandes, o edil de Murça.

O orçamento municipal aprovado para este ano já contempla uma verba para estes gastos. Agora o gabinete jurídico da autarquia está a elaborar o regulamento de atribuição do prémio e, segundo o autarca, ainda este mês o assunto vai a discussão na Assembleia Municipal.

José Gomes, actual vereador social-democrata e ex-presidente da Câmara, não acredita que esta seja a solução para evitar que os jovens saiam do concelho. «É uma medida isolada, mas se ficar provado que não é só demagogia, e que realmente vai apoiar os mais desfavorecidos, não vou ficar contra», diz.

Ao contrário de Vimioso, Murça fica no eixo do IP4, mais perto das grandes cidades. Talvez por isso, a desertificação não se note tanto. Mas é certo que a população está a envelhecer cada vez mais. O padre Sérgio abre de novo o computador, pesquisa o ano de 2002 e faz contas: «Desde o início do ano, em toda a vila de Murça, fiz três baptizados e dez funerais».

Eduarda Freitas

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